Relatar mais é fazer melhor?
Seis relatórios de sustentabilidade de uma grande empresa brasileira de carnes, de 2018 a 2023. Os relatórios ficaram mais completos. As práticas sociais nem sempre acompanharam. E quem mais move a empresa é a lei, não a sociedade. Explicada em 10 telas.
Um relatório é um termômetro, não o remédio
Das três partes da sustentabilidade (ambiental, econômica e social), a social é a mais esquecida. Ela trata do impacto da empresa sobre as pessoas: trabalhadores, comunidades, clientes, fornecedores. No setor de carnes, os riscos são conhecidos:
- saúde e segurança dos trabalhadores
- condições de trabalho
- trabalho infantil
- direitos indígenas
- grilagem de terras
Muitas empresas contam o que fazem num relatório de sustentabilidade que segue o padrão internacional GRI. A parte social do padrão (GRI 400) lista os temas que a empresa deve relatar. Mas um termômetro mais preciso não baixa a febre: relatar bem não é o mesmo que fazer bem. A dissertação mede as duas coisas separadamente.
O Brasil é peça-chave no mercado mundial de carnes: em 2017–2021, teve 29% das exportações mundiais de frango, 14% das de carne bovina e 6% das de suína.
Toque num tema. Tracejados: temas que a empresa estudada não considerou relevantes e deixou fora dos relatórios. Os temas GRI 412 e 419 saíram do padrão e não entram na análise. Fontes: seções 1, 3.2 e 4.2 da dissertação.
Seis relatórios lidos linha por linha
Das seis empresas de carnes e derivados na bolsa brasileira, a autora escolheu a que tinha os relatórios mais longos e consistentes e as melhores posições no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3. Para preservar a empresa, a dissertação a chama de MeatCo.
- Quão completo? Cada um dos 14 temas recebeu nota por ano: 1 (não relatou), 3 (relatou em parte) ou 5 (relatou tudo o que a norma pede).
- Melhorou na prática? Cada exigência foi comparada ano a ano e classificada: melhora, sem mudança, piora ou variação.
- Quem aparece? Cada grupo citado foi contado como afetado pela empresa ou como quem afeta a empresa.
Trechos dos relatórios da empresa (tradução nossa), com a nota dada pela autora. Fonte: Tabelas 2 e 6 e seção 4.3.13.
O relatório ficou mais completo: de 38 para 50 pontos
Somando as notas dos 14 temas, o máximo seria 70. A empresa passou de 38 pontos em 2018 para 50 em 2023. Cinco temas melhoraram, seis ficaram sempre "em parte" e três oscilaram. Toque num bloco:
Ver como tabela
Altura e cor: nota 1, 3 ou 5. Linhas tracejadas: temas fora dos relatórios. Totais refeitos a partir das notas da Tabela 6; a linha "Soma" da tabela traz 39 em 2018 e 48 em 2022. Fonte: Tabela 6.
Relatar melhor não é fazer melhor. Faça sua aposta
Estes são os cinco temas em que o relatório ficou mais completo. Em cada um, a prática também melhorou? Aposte e vire o cartão.
E o contrário também acontece: saúde e segurança no trabalho e avaliação social de fornecedores ficaram sempre "em parte" no relatório, mas a prática melhorou. Completude e desempenho são coisas diferentes. Fonte: Tabelas 6 e 7, seções 4.3.4 a 4.3.13.
Avanços e recuos convivem
No balanço, houve mais avanços que recuos, mas muitos temas ficaram parados. Escolha um indicador:
Quem a empresa afeta não é quem move a empresa
Os relatórios citam muitos grupos, os stakeholders. Quando falam de quem é afetado pela empresa, aparecem sobretudo trabalhadores, fornecedores e clientes. Quando falam de quem afeta a empresa, quem domina é o governo, seguido da própria gestão e dos órgãos que criam regras e normas. A sociedade aparece 34 vezes como afetada e só 1 vez como alguém que pesa nas decisões.
Menções nos temas sociais dos relatórios de 2018 a 2023. Valores aproximados, lidos dos gráficos da dissertação (as Figuras 15 e 16 não trazem os números). Toque num grupo para ler mais.
A empresa ainda está no primeiro degrau: cumprir a regra
Como quem mais pesa são governo, reguladores e gestão, a autora conclui que a empresa age de forma reativa: cuida da sustentabilidade social sobretudo para cumprir o que é exigido. Num modelo de três estágios (Miller e Serafeim, 2014), isso é o estágio da conformidade. Os temas que mais avançaram, como saúde e segurança no trabalho, são justamente os mais puxados por leis e normas.
E esta era a empresa com os relatórios mais longos e consistentes do setor. Para a autora, isso sugere que o setor todo precisa de esforços mais proativos, algo que estudos com outras empresas devem confirmar.
Ler um relatório com outros olhos
A principal lição vale para qualquer empresa: medir só se o relatório está completo pode esconder recuos. É preciso olhar o que mudou de fato para as pessoas.
Para as empresas
- Ir além de relatar: acompanhar se os indicadores sociais melhoram.
- Ser consistente ano a ano, sem temas que somem e voltam.
- Ouvir a sociedade e as comunidades, não só quem fiscaliza.
- Relatar temas sensíveis do setor, como os direitos indígenas.
Para quem cria os padrões
- Orientações mais precisas no GRI, para comparar anos e empresas.
- Percentuais em vez de números brutos (ex.: retorno após licença parental).
- Evitar que mudanças nas normas interrompam as séries.
Para o governo
- Leis e normas foram o que mais puxou os avanços.
- Políticas focadas em indicadores sociais podem melhorar as práticas das empresas.
- Auditoria externa dá mais confiança aos relatórios.
Para investidores, consumidores e pesquisadores
- Relatório completo não é selo de bom desempenho social.
- Desconfie de temas que aparecem só nos anos bons.
- O método da dissertação separa completude de desempenho e pode ser aplicado a outras empresas.
O que esta pesquisa não diz
- Só o que a empresa escreveu. A análise usa apenas os relatórios da própria empresa, sem entrevistas nem outras fontes para confirmar. · segundo a autora
- Uma empresa, seis anos. Não há comparação com outras empresas do setor; um período maior mostraria mudanças mais longas. · segundo a autora
- Só os grupos citados. Quem não aparece nos relatórios pode ser afetado ou influente e ficou de fora da contagem. · segundo a autora
- Mais denúncias nem sempre é mais problema. O número de casos de discriminação pode crescer também com mais conscientização ou mais funcionários. · segundo a autora
- O ISE pode refletir porte e lucro. Ser bem colocada no índice não garante investimento social maior. · segundo a autora
Créditos
ALBINO, Anny Victória Lacera Auerswald. Social sustainability reporting in a Brazilian meat and derivative company: a study of MeatCo (2018-2023). Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2024. Orientador: Prof. Dr. Almir Martins Vieira.
Dissertação escrita em inglês. Estudo de caso com análise documental (temática e estatística descritiva) dos relatórios GRI de 2018 a 2023. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; os detalhes de cada exigência do GRI e as discussões completas estão no texto original.