Quem cuida melhor da sua previdência?
Quase todo o dinheiro novo da previdência privada aberta do Brasil (PGBL e VGBL) vai para empresas ligadas aos grandes bancos. A pesquisa comparou 4.090 fundos de previdência, de 2010 a 2022, para ver se as gestoras dos cinco maiores bancos entregam mais ou menos que as gestoras independentes. Explicada em 12 telas.
Altura = número de fundos de previdência de cada grupo no ano (azul: cinco grandes bancos; vermelho: gestoras independentes). Valores aproximados, lidos do Gráfico 9 da dissertação. Em 2022, as independentes passam a ter mais fundos.
A aposentadoria do INSS vai pesar cada vez mais sobre menos gente
No INSS, quem trabalha hoje paga a aposentadoria de quem já parou. Com menos filhos e vidas mais longas, a conta aperta, e o país já fez sete reformas desde 1993. Por isso, cada família passa a carregar parte do próprio planejamento.
Dados citados pela dissertação (Agência Senado; INSS). Em 2022, o INSS concedeu 1.327.990 aposentadorias, com valor médio de R$ 1.710,18.
Na previdência, o imposto cai quanto mais tempo o dinheiro fica
No PGBL, quem faz a declaração completa desconta os aportes (até 12% da renda bruta) e paga imposto sobre tudo no resgate. No VGBL, o imposto incide só sobre o rendimento. Na tabela regressiva, a alíquota cai de 35% para 10% com o tempo.
ilustração Aplicação de R$ 10.000 que rendeu R$ 6.000: números inventados. As alíquotas são as da Tabela 3. A conta não inclui o desconto que o PGBL dá na declaração de cada ano, nem a tabela progressiva (15% na fonte, ajuste de 0% a 27,5%).
Cinco empresas ligadas a bancos ficam com quase todo o dinheiro novo
A rede de agências dos bancos facilita a venda dos planos, e o resultado é um mercado que a autora chama de oligopólio. A pergunta da pesquisa nasce daí: quem compra no banco recebe uma gestão melhor ou só mais cara?
Dados da Fenaprevi citados pela dissertação (seções 1 e 2.1).
A pesquisa reuniu 4.090 fundos de previdência e os separou em dois times
De um lado, os fundos das gestoras do Itaú, do Bradesco, do Banco do Brasil, do Santander e da Caixa (1.788 fundos, conta nossa). Do outro, os de todas as demais gestoras (2.302), como XP, BTG Pactual, Icatu, SulAmérica e JGP.
Tabela 1 (Economatica). Só fundos ativos em janeiro de 2023 (a autora fala em viés de sobrevivência). O fundo é do time dos bancos quando o nome do banco está no nome do fundo.
Os fundos dos bancos são maiores e cobram um pouco mais
O número de fundos independentes cresceu rápido depois de 2018 e, em 2022, passou o dos bancos. Mas, em tamanho, os fundos dos bancos ainda são muito maiores. E a taxa de administração média deles é um pouco mais alta.
Número de fundos por ano lido do Gráfico 9 (valores aproximados; a soma, ~16,6 mil fundos-ano, confere com as 16.573 observações do primeiro modelo da Tabela 6). Tamanho, taxa e aplicação mínima: Tabela 4, janeiro de 2023.
Render mais não basta: é preciso ver quanto risco o fundo correu
A dissertação mediu cada fundo com réguas clássicas. Todas comparam o fundo com a Selic, o que se ganharia sem risco. Escolha um fundo inventado e mexa no retorno para ver como cada régua reage.
ilustração Fundos, Selic (10%) e Ibovespa (15%) inventados. As fórmulas seguem a seção 2.9; a dissertação calcula as réguas com as cotas diárias de cada fundo, ano a ano.
Seis réguas comparam os dois times em fundos parecidos
O modelo compara fundos do mesmo ano, de tamanho, risco e taxa parecidos. Aposte: em cada régua, os fundos dos bancos ficaram melhor, igual ou pior para quem poupa?
Modelo completo das Tabelas 6, 11, 13, 15, 17 e 19. Altura = degraus de segurança (p < 0,10; < 0,05; < 0,01); coluna plana e cinza = sem diferença clara. A dissertação não informa a unidade de alpha, Sharpe, Sortino e Treynor, por isso só o retorno e a taxa aparecem em pontos percentuais.
Na conta simples, os dois times parecem empatar no retorno
Antes de comparar fundos parecidos, olhe só a média. Palpite: na comparação simples, os fundos dos bancos renderam mais, igual ou menos?
Tabelas 6, 13, 15, 17 e 19. Ponto = diferença dos bancos em relação às independentes; traço = faixa de 95% (coeficiente ± 1,96 erro-padrão, conta nossa). Atenção: quando a taxa entra (modelos 4 e 5), o modelo usa só os fundos com taxa informada, cerca de metade das observações (observação nossa).
Os fundos dos bancos renderam menos em 7 dos 13 anos
Como o número de fundos mudou muito no período, a autora também rodou o modelo ano a ano. A diferença não é sempre igual: em três anos, os bancos ficaram na frente. Toque numa barra para ver o ano.
Contagem nossa, com p < 0,01 em todos os anos contados (as Tabelas 8 e 9 usam os fundos com taxa informada, de 144 em 2010 a 2.000 em 2022).
A diferença aparece sobretudo nos multimercados e na renda fixa
Separando os fundos por tipo, os multimercados dos bancos ficam atrás em todas as seis réguas. Na renda fixa, em quatro. Nas ações, o grupo é pequeno (339 fundos-ano) e só aparecem pistas fracas. Toque numa coluna ou escolha um tipo.
Ver em tabela
O que muda para quem poupa, gere ou regula
Quem poupa
Olhe a taxa e as réguas de risco antes de aceitar o plano da agência. A portabilidade permite trocar de fundo ou de empresa sem resgatar e sem pagar imposto na troca.
Bancos e gestoras
A dissertação lembra que taxas mais altas se justificam em fundos de gestão ativa, que buscam superar o mercado. Com mais gestoras e plataformas abertas, a concorrência tende a pressionar as taxas.
Reguladores
A autora vê no open banking e no open finance um caminho para o poupador comparar produtos e para o mercado concentrado ficar mais competitivo.
Pesquisadores
Próximo passo sugerido: ver se os fundos dos bancos rendem menos porque seguem mais de perto os índices de referência, numa gestão mais passiva.
Esta página divulga uma pesquisa acadêmica; não é recomendação de investimento.
O que esta pesquisa não diz
- Só os fundos que sobreviveram. A base tem os fundos ativos em janeiro de 2023; os que fecharam no caminho ficaram de fora. · segundo a autora
- Taxa máxima e time pelo nome. A pesquisa usou a taxa máxima de cada fundo (quem aplica mais costuma pagar menos) e classificou o fundo como de banco pelo nome. · segundo a autora
- Associação, não causa. O modelo mostra que os fundos dos bancos andaram com resultados piores, não por que isso aconteceu. A própria autora fala em "correlação" e em resultados "parciais". · observação nossa
- Direção, mais que tamanho. Sem a unidade de alpha, Sharpe, Sortino e Treynor, a página mostra só para que lado foram. E os modelos completos usam cerca de metade dos dados e explicam pouco do que muda dentro de cada ano (13,8% no retorno). · observação nossa
Créditos
SCHIONATO, Vanessa Andrade de Castro. Análise de desempenho dos fundos de previdência complementar aberto VGBL/PGBL entre 2012 e 2022. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas), Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2024. Orientador: Prof. Dr. Denis Forte.
Pesquisa com apoio da CAPES. Dados da Economatica; análise no software R. O título fala em 2012 a 2022, mas as tabelas de resultado cobrem 2010 a 2022. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as fórmulas e as tabelas completas estão no texto original.