Obrigar a divulgar práticas sustentáveis aproxima a empresa da falência?
Entre 2016 e 2022, seis países emergentes, Brasil entre eles, passaram a exigir que as empresas abertas contassem o que fazem pelo meio ambiente, pelas pessoas e pela boa gestão (ESG). A pesquisa acompanhou 6.126 empresas em 11 países, de 2014 a 2023, para ver o que a obrigação fez com o risco de falência delas. Explicada em 11 telas.
Uma coluna por país, de 2014 a 2023. O bloco vermelho aparece no ano em que a divulgação passou a ser obrigatória (seção 3.2). As alturas são iguais de propósito.
Divulgar pode proteger a empresa ou pesar no caixa
Divulgar práticas ESG pode ser escolha da empresa ou exigência da lei. Quando vira lei, todos contam, e no mesmo formato.
Quatro teorias de finanças disputam o efeito disso no risco de falência. Ponha cada uma no prato da balança.
Lado de cada teoria lido nas seções 2.2.1 a 2.2.4 da dissertação (classificação nossa). A teoria da agência aparece dos dois lados: o gasto com ESG pode ser custo para a imagem dos gestores ou melhorar os resultados.
Seis países passaram a exigir, cada um no seu ano
Malásia e Peru saíram na frente, em 2016. O Brasil veio por último, em 2022. África do Sul, Argentina, Rússia, China e México não criaram a obrigação e servem de comparação.
Ano de início de cada regra segundo as seções 1.4 e 3.2; detalhes das leis na seção 2.1.4. Toque num país para ver a lei.
Os estudos anteriores não chegaram a um acordo
A dissertação reuniu quatro pesquisas parecidas, todas com o método que você vai conhecer na tela 07. Antes de virar o cartão, aposte: depois da regra, o risco das empresas caiu, subiu ou nada mudou?
6.126 empresas acompanhadas por dez anos
Empresas abertas não financeiras de 11 países emergentes, com dados de 2014 a 2023 (Capital IQ e Banco Mundial). Seis países formam o grupo que passou a obrigar; cinco, o grupo de comparação.
- País emergente, segundo o Banco Mundial.
- Pelo menos cinco empresas não financeiras com nota de crédito da S&P em algum ano. Para o autor, ter nota de crédito mostra preocupação com o risco de falência.
- Patrimônio líquido positivo e ativo acima de US$ 1 milhão.
Cada ponto = 1% de 61.260, o máximo de "empresa em um ano" possível (6.126 empresas × 10 anos, conta nossa). Observações da Tabela 3: 38.928 para o Z e 53.002 para o custo da dívida. A dissertação não informa quantas empresas há em cada grupo.
Duas réguas do risco, que apontam para lados opostos
Ninguém mede a falência antes que ela aconteça; mede sinais. O Z de Altman soma cinco índices do balanço: quanto mais alto, mais segura a empresa. O custo da dívida é quanto ela paga de juros sobre o que deve: quanto mais alto, mais arriscada parece aos credores.
Empresa inventada, em R$ milhões. Fórmulas da Tabela 2: Z = 1,2·X1 + 1,4·X2 + 3,3·X3 + 0,6·X4 + 1,0·X5; custo = despesas financeiras ÷ dívida total. Zonas de Altman (1968) citadas na seção 4.1: abaixo de 1,81, perigo; de 1,81 a 2,99, cinzenta; acima de 2,99, segura. O traço preto marca a média da amostra (Tabela 3).
Em vez do nível, a pesquisa compara quanto cada grupo mudou
O método se chama diferença em diferenças (difference-in-differences, DID). Ele trata a lei como um experimento natural: compara a mudança no risco das empresas dos países que passaram a obrigar com a mudança nos países que não obrigaram.
ilustração Números inventados para mostrar a lógica. Na pesquisa, cada país tem o seu "depois" (o ano da sua lei), e o modelo controla o que é próprio de cada país e de cada ano. A premissa do método: sem a lei, os dois grupos teriam seguido a mesma tendência.
Com a obrigação, os sinais de risco pioraram
No teste principal, o Z de Altman das empresas dos países que passaram a obrigar caiu em relação ao das empresas dos demais países, com significância de 1%. No teste de robustez, o custo da dívida subiu, mas só com significância de 10%: uma pista na mesma direção.
Coeficientes da Tabela 5 (efeitos fixos de país e ano, erros robustos). Médias da Tabela 3. O custo da dívida é uma fração, então 0,0045 equivale a 0,45 ponto percentual (conta nossa, pela fórmula da Tabela 2). A barra da direita soma o efeito à média só para dar a escala.
Nem todo fator aponta para o mesmo lado nas duas réguas
O modelo também leva em conta três características das empresas e três dos países. Aposte: com mais de cada uma, o risco de falência sobe ou desce?
"Teoria esperava": seções 2.2.6 e 2.2.7. Resultados: Tabela 5, lidos no sentido do risco (Z mais alto = risco menor; custo mais alto = risco maior). "Pista" = significativo só a 10%.
Lucrar mais deixa a empresa mais segura numa régua e mais cara na outra
Pelo Z de Altman, quem lucra mais sobre o ativo está mais longe da falência. Pelo custo da dívida, essas mesmas empresas pagam juros maiores. Mova os controles e veja as duas réguas reagirem.
simulação nossa Parte da média de cada medida (Tabela 3), com ROA de 6% e tangibilidade de 41%, perto das médias, e soma os coeficientes de ROA e tangibilidade da Tabela 5, com todo o resto fixo. Mostra a direção e o tamanho dos coeficientes; não prevê o risco de uma empresa real.
O que muda para quem divulga, investe ou regula
Empresas
Saber que a obrigação veio junto com mais sinais de risco ajuda a planejar as ações sustentáveis sem descuidar do caixa e da continuidade.
Investidores e credores
A pesquisa liga dois dados que pesam nas decisões de investimento: as práticas ESG e o risco de falência.
Reguladores
Para o autor, os resultados pedem regras de ESG flexíveis e adaptadas aos mercados emergentes, que não comprometam a estabilidade financeira das empresas.
Pesquisadores
Próximo passo sugerido: o efeito das normas internacionais IFRS S1 e S2, em vigor desde 2024, no risco de falência, antes e depois da adoção.
O que esta pesquisa não diz
- Poucos países cabem no critério. Só entram emergentes com ao menos cinco empresas com nota de crédito da S&P. · segundo o autor
- Sinais de risco, não falências. O Z de Altman e o custo da dívida são termômetros; nenhuma falência de fato foi contada. E o efeito médio deixa o Z ainda na zona segura. · observação nossa
- A premissa do método não foi testada no texto. A dissertação não mostra se os grupos seguiam a mesma tendência antes das leis, nem o efeito ano a ano, nem quanto o modelo explica. Malásia e Peru têm só dois anos antes da lei; o Brasil, só dois depois. · observação nossa
- Leis diferentes, um só evento. Regras escalonadas (Índia), só para bancos primeiro (Indonésia) e "pratique ou explique" (Brasil) entram como a mesma mudança. · observação nossa
- A confirmação é parcial. No custo da dívida, o efeito só passou a 10% de significância. · observação nossa (Tabela 5)
Créditos
LOPES, Mateus Del Col. A relação entre a obrigatoriedade da divulgação de práticas sustentáveis e o risco de falência das empresas: uma análise de países emergentes. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientadora: Profa. Dra. Michele Nascimento Jucá.
Pesquisa com apoio da CAPES. Dados da Capital IQ e do Banco Mundial. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as fórmulas e as tabelas completas estão no texto original.