A Covid fez os bancos emprestarem menos?
Na pandemia, os governos baixaram os juros e soltaram dinheiro para o crédito chegar a empresas e famílias. Mas os bancos nem sempre seguiram o roteiro. A pesquisa acompanhou 1.153 bancos de 65 países, de 2016 a 2023, para ver onde o crédito freou. Explicada em 12 telas.
Uma coluna por ano. Azul: 767 bancos de países desenvolvidos; vermelho: 386 de países emergentes. As alturas são iguais de propósito: os mesmos 1.153 bancos aparecem em todos os anos (Tabela 3 e Apêndice A).
Na crise, o banco fica entre o governo e quem precisa de crédito
O banco recebe o dinheiro de quem poupa e empresta a quem precisa. Na Covid, os governos usaram os bancos para fazer o dinheiro circular: juros menores, mais liquidez, garantias. Só que a incerteza também deixa o banco com medo de não receber de volta.
ilustração A espessura das setas mostra a ideia, não números. Os cenários resumem as seções 1.1, 2.1.4 e 2.1.5; os números do PIB vêm de estudos citados pela dissertação (Banco Mundial; Alon e colegas, 2023).
A Covid matou proporcionalmente mais nos países de renda mais baixa
Os países ricos registraram mais casos. Mas, para cada 100 casos, as mortes foram três vezes mais frequentes nos países de renda baixa. Economias emergentes têm menos recursos para se proteger de uma crise sanitária, e foi isso que levou a pesquisa a separar desenvolvidos e emergentes.
Dados da Organização Mundial da Saúde até dezembro de 2024, citados na seção 2.1.1; faixas de renda do Banco Mundial. Na pesquisa, "desenvolvido" é o país de renda alta e "emergente" reúne as outras três faixas.
Cinco estudos olharam o crédito na pandemia com o mesmo método
Todos comparam um grupo atingido com outro menos atingido, antes e depois da Covid (o método da tela 07). Aposte: o grupo em destaque recebeu menos, o mesmo ou mais crédito que o outro?
1.153 bancos de 65 países, oito anos cada um
Bancos comerciais de capital aberto, com patrimônio positivo e ativo acima de US$ 1 milhão, acompanhados de 2016 a 2023: quatro anos antes da Covid e quatro depois. São 9.224 observações (um banco em um ano). Dados da Capital IQ, do Banco Mundial e da OMS.
Cada ponto = 1 banco. Bancos e casos de Covid de 2020 a 2023 por país: Apêndice A (somas conferidas: 767 e 386 bancos).
A pesquisa mede o crédito como fatia do ativo do banco
O crescimento do crédito compara a fatia dos empréstimos no ativo deste ano com a do ano anterior. Mexa no banco inventado ao lado.
Banco inventado. Fórmula da Tabela 2: crescimento = (empréstimos ÷ ativo deste ano) ÷ (empréstimos ÷ ativo do ano anterior) − 1. Leitura nossa: por ser uma fatia, a medida pode cair mesmo quando o banco empresta mais, se o ativo crescer mais rápido.
Média, desvio-padrão e extremos da Tabela 3 (amostra completa). O círculo vermelho é o banco inventado.
A pesquisa compara quanto cada grupo mudou depois de 2020
O método se chama diferença em diferenças (difference-in-differences, DID). Os países com casos de Covid por milhão de habitantes iguais ou acima da mediana formam o grupo de alto contágio; os demais, o de comparação. A mesma lógica compara emergentes e desenvolvidos.
ilustração Números inventados para mostrar a lógica. A premissa do método: sem a Covid, os dois grupos teriam seguido a mesma tendência. No modelo real, a pesquisa também mantém fixos o tamanho, o caixa e o capital dos bancos, o crescimento do PIB e a qualidade do governo de cada país.
O pareamento deixou os grupos mais parecidos
Os bancos de alto contágio eram diferentes dos outros. Para comparar parecidos com parecidos, a pesquisa refez a conta com o pareamento por escore de propensão (propensity score matching, PSM): para cada observação do grupo de alto contágio, escolheu a mais parecida do grupo de comparação, sem repetir.
Diferença padronizada entre os grupos, em % (viés), Tabela B.1. Zero = grupos iguais. A governança do país foi a que mais se aproximou; o caixa quase não mudou. A própria tabela marca que o desequilíbrio geral (indicador B: 63,1% → 27,8%) continuou acima da referência de 25%.
Cada hipótese recebeu uma resposta clara do modelo
A pesquisa partiu de três hipóteses. Antes de ver as colunas, aposte: o modelo confirmou cada uma?
Tabela 5: M1 = teste principal (1.153 bancos), M2 = teste com pareamento (947). Altura = significância: três degraus para p < 0,01, dois para p < 0,05. Mostramos só a direção e a significância, porque o tamanho dos coeficientes não cabe na escala da medida (veja os limites).
Olhando por cima, o crédito cresceu menos depois de 2020
Na correlação simples, os anos depois da Covid andam junto com crescimento do crédito menor. No modelo, o termo "depois da Covid" vira positivo, e por isso a primeira hipótese não se confirmou. Toque nos três cartões.
Correlações da Tabela 4 (painel sem pareamento); no pareado, −0,07 e 0,91. Coeficientes e p da Tabela 5, modelo 1.
Cinco características dos bancos e dos países também entram na conta
A teoria esperava que todas elas fizessem o crédito crescer mais. Aposte em cada uma: com mais dela, o crédito cresce mais, menos, ou não dá para dizer?
Sinal esperado: Tabela 2. Sinal encontrado: Tabela 5. "Pista" = p entre 0,05 e 0,10. R² da Tabela 5: a parte das diferenças no crescimento do crédito que o modelo explica.
O que muda para quem regula, empresta ou investe
Governos e reguladores
Juros baixos e dinheiro solto não bastam se os bancos se retraem. Saber onde o crédito freia mais (países mais atingidos e emergentes) ajuda a dosar as medidas para cada país.
Bancos
Perceber cedo os períodos de mais incerteza, vindos de choques de fora, ajuda a ajustar o capital antes da crise.
Investidores
A reação diferente dos bancos de cada grupo de países pode entrar na hora de diversificar o risco da carteira.
Pesquisadores
Próximos passos sugeridos: ver se quem é dono do banco muda a reação e olhar outros canais de crédito, como fundos de recebíveis, empréstimos entre pessoas e títulos.
O que esta pesquisa não diz
- Só bancos de capital aberto. Os de capital fechado ficaram de fora por falta de dados. · segundo a autora
- Direção, não tamanho. Os coeficientes da Tabela 5 são grandes demais para a escala da medida (média de 0,3% e desvio-padrão de 9,6 pontos), por isso a página mostra só para que lado o crédito foi e com que segurança. · observação nossa
- O modelo explica pouco. 3,1% das diferenças no crescimento do crédito (0,8% com pareamento): o crédito depende de muito mais. · observação nossa
- O grupo é o país, não o banco. Todo banco de um país de alto contágio entra no mesmo grupo, e os EUA têm 37% dos bancos. A dissertação não mostra se os grupos seguiam a mesma tendência antes de 2020. · observação nossa
Créditos
ROBIAL, Karina. O impacto da Covid na concessão de crédito bancário. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas), Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientadora: Profa. Dra. Michele Nascimento Jucá.
Pesquisa com apoio da CAPES. Dados da Capital IQ, do Banco Mundial e da OMS; análise no Stata. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as fórmulas e as tabelas completas estão no texto original.