O clima entra no preço da estreia na bolsa?
Quando uma empresa estreia na bolsa, a ação costuma fechar o primeiro dia acima do preço de oferta: um desconto para quem comprou. A pesquisa reuniu 880 estreias em 25 países, de 2015 a 2024, e perguntou se regras ambientais e mudanças climáticas mexem nesse desconto. Explicada em 12 telas.
Na média das 880 estreias, a ação fechou o primeiro dia 45,38% acima do preço de oferta (Tabela 3). O preço de R$ 10 é ilustrativo.
Na estreia, a ação costuma sair barata
Abrir o capital (fazer um IPO, oferta pública inicial) é vender ações na bolsa pela primeira vez. A empresa e os bancos fixam um preço de oferta. No primeiro dia de negociação, o mercado diz quanto a ação vale.
Quando o fechamento do primeiro dia fica acima do preço de oferta, há um desconto de estreia (underpricing): ganho rápido para quem comprou na oferta. A conta é simples: (fechamento − oferta) ÷ oferta. Arraste para ver.
Pode ser de propósito ou não. Segundo a dissertação, o desconto pode ser uma estratégia para atrair investidores e dar liquidez às ações, ou algo inesperado.
Quem compra sabe menos que quem vende
Na estreia, os gestores conhecem a empresa por dentro; os investidores, não. Para compensar a dúvida, pedem um desconto. Três teorias de finanças explicam esse jogo, e todas apontam para o mesmo remédio: informação clara e confiável. Toque nos cartões.
880 estreias em 25 países
A pesquisa partiu de 65 países de um estudo anterior (Krueger e colegas, 2024) e ficou com os 25 que tinham dados suficientes de IPOs entre 2015 e 2024. Em 18 deles, a lei obriga as empresas a divulgar práticas ambientais e sociais; em 7, não.
Número de IPOs por país (Apêndice A). A regra conta a partir do ano em que passou a valer, segundo Krueger e colegas (2024): estreias anteriores contam como "sem regra". Toque num país.
Poucas estreantes mostram a nota de carbono, e as notas são baixas
A organização CDP (Carbon Disclosure Project) dá às empresas uma nota de F a A pela forma como lidam com o clima. É voluntária: só 145 das 880 estreantes tinham nota.
A média foi 0,86 numa escala de 0 a 8, perto de D−: empresas que começam a divulgar, mas ainda não gerenciam os impactos de forma estruturada. Nenhuma chegou ao A.
Área proporcional ao número de estreias. Os modelos que testam todas as variáveis juntas usam só essas 145, as que têm nota.
Altura do degrau: a posição na escala (F = 0 … A = 8), não o número de empresas, que a dissertação não informa por nota. Faixas da nota segundo a Tabela 2. Toque num degrau.
Empresas dentro de países: uma análise em dois andares
Estreias no mesmo país dividem a mesma lei, a mesma economia e o mesmo clima. Por isso, a pesquisa usa uma regressão multinível: separa o que é de cada empresa (andar de cima) do que é do país (andar de baixo).
Nem tudo o que parecia óbvio se confirmou
Antes de ver, aposte: a pesquisa confirmou cada hipótese? O cartão vira com o resultado do modelo completo (Tabela 5, 145 estreias).
Mais pessoas atingidas por desastres, desconto maior
Quanto mais pessoas um país tem afetadas por desastres climáticos, maior o desconto na estreia. A cada 1% a mais de pessoas afetadas, o desconto sobe 0,025 ponto percentual. Para a autora, investidores de países mais expostos aos efeitos sociais do clima veem mais risco e pedem mais desconto.
O número de desastres apontou para o lado oposto: mais desastres, desconto menor. Para a autora, desastres frequentes tornariam o mercado mais cauteloso. Mas é uma pista fraca, que não se repetiu nos testes de robustez (tela 10).
Simulação nossa. Parte do desconto médio da amostra (45,38%) e aplica os coeficientes do modelo completo (pessoas: 0,0251, p < 5%; desastres: −0,1048, p < 10%; Tabela 5), mantidas as demais características. Mostra associação, não causa; não prevê o desconto de um IPO real.
Tecnologia, tamanho, idade e auditoria também mexem no desconto
As características da própria estreia contam muito. Empresas de alta tecnologia e ofertas maiores tiveram desconto maior; empresas mais antigas e auditadas por uma das quatro grandes firmas de auditoria (Big Four: PwC, EY, Deloitte e KPMG), desconto menor.
Conversão nossa dos coeficientes do modelo completo (Tabela 5) em pontos percentuais de desconto, para a mudança indicada em cada linha. Estrelas: significância a 10% (*), 5% (**) e 1% (***). Toque numa linha.
Três provas, um resultado que resiste
Para ver se o achado depende do método, a autora refez a análise de outros dois jeitos: uma regressão simples e uma regressão logística, que separa as estreias em desconto alto ou baixo (acima ou abaixo da mediana). Entre as variáveis de clima e de divulgação, só as pessoas afetadas passaram nas três.
Altura do bloco: força da evidência (1, 2 ou 3 estrelas). Tabelas 5 e 6, todas com as 145 estreias que têm nota de carbono. Toque num bloco.
Ver os coeficientes da tese
O que muda para quem investe, abre capital ou regula
Na estreia, os investidores já parecem cobrar pelo risco social do clima. Já as regras de divulgação e as notas de carbono ainda não aparecem no preço do primeiro dia.
Para investidores
- O impacto do clima sobre as pessoas do país entra no preço da estreia.
- Olhar para essa exposição ajuda a decidir com mais critério em processos de IPO.
Para empresas que vão abrir capital
- Informar como a empresa lida com os riscos do clima pode reduzir a dúvida dos investidores.
- A pesquisa sugere ajustar a comunicação para atrair recursos na estreia.
Para reguladores e governos
- Os resultados podem orientar políticas de divulgação de riscos ambientais e climáticos.
- A regra obrigatória, sozinha, não mudou o desconto na estreia. Talvez o efeito apareça só no longo prazo, segundo a autora.
Para pesquisadores
- Testar outras medidas: intensidade de carbono, energia renovável, comitês de sustentabilidade, sinais de greenwashing, ondas de calor, secas e enchentes.
- Estudar também as estreias que fecham abaixo do preço de oferta.
O clima já entra no preço da estreia, mas pelo lado humano: quanto mais gente atingida por desastres, maior o desconto que os investidores pedem.
O que esta pesquisa não diz
- Só 145 empresas com nota de carbono. Como a nota é voluntária e rara entre estreantes, o modelo completo usa 145 das 880 estreias. Com poucos dados, é difícil comprovar o efeito da nota. · segundo a autora
- Efeitos de longo prazo ficam de fora. Regras ambientais e mudanças de temperatura podem agir aos poucos e não aparecer no preço do primeiro dia. · segundo a autora
- Associação, não causa. O modelo mostra que desconto e pessoas afetadas andam juntos, mantidas as demais variáveis; não prova que um causa o outro. · observação nossa
- Só estreias com desconto. Na amostra, todas fecharam o primeiro dia acima do preço de oferta (o menor desconto foi 0,07%). Estreias que caem ficam para estudos futuros. · Tabela 3 e conclusão
Créditos
MEDINA, Rosangela. O efeito da divulgação obrigatória das práticas ambientais e das mudanças climáticas no underpricing de IPO das empresas. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2026. Orientadora: Profa. Dra. Michele Nascimento Jucá.
Pesquisa com apoio da CAPES. Dados da Capital IQ, Bloomberg, Fundo Monetário Internacional, Heritage Foundation e Banco Mundial; análise no Stata. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as fórmulas e as tabelas completas estão no texto original.