O preço do campo sobe. E o FIAGRO?
Os FIAGROs são fundos da bolsa que levam o dinheiro de quem investe ao agronegócio. A pesquisa acompanhou 40 desses fundos, dia a dia, de 2021 a 2025, e comparou seus retornos com o preço de oito produtos do campo. A ligação foi bem menor do que se esperava. Explicada em 12 telas.
O agro é um quarto da economia e quase não está na bolsa
Para aproximar os dois mundos, a Lei 14.130/2021 criou os FIAGROs: fundos negociados na bolsa que investem nas cadeias do agronegócio. Quem compra uma cota passa a participar, de forma direta ou indireta, do crescimento do setor.
Dados do CEPEA–Esalq/USP e da B3 citados na introdução da dissertação. Em 2021, o agro chegou a 26,6% do PIB; em 2023, a 28% dos ocupados.
Muito se estuda sobre commodities. Sobre FIAGROs, nada
A autora então ampliou a busca para agronegócio, investimentos e commodities. De 3.104 documentos, sobraram 56 artigos de 2021 a 2025. Toque em cada etapa do funil.
Funil: Figura 1. Temas: Tabela 7 (classificação feita por dois pesquisadores, com um terceiro nos desempates). Métodos: Tabela 8. Nenhum artigo brasileiro apareceu na Web of Science; estudos nacionais sobre FIAGROs existem em bases mais amplas, mas nenhum ligou o preço das commodities ao desempenho desses fundos (seção 2.2).
40 fundos, oito preços do campo e quatro anos de pregões
Todos os FIAGROs negociados na B3 com cotação disponível, de outubro de 2021 (início das negociações) a dezembro de 2025:
Ao lado do retorno de cada fundo, a variação diária de:
Fundos: Tabela 9 (Bloomberg). Preços à vista do CEPEA–Esalq; Selic, Ibovespa e dólar (Ptax) da Bloomberg. O modelo usa a variação de cada dia e de até quatro pregões antes, num painel com erros-padrão robustos (Stata).
A cota e o dividendo entram na conta
Exemplo ilustrativo da fórmula da dissertação (seção 3.1): retorno = (cota de hoje − cota de ontem + dividendo) ÷ cota de ontem. O dividendo conta na data em que a cota passa a ser negociada sem ele (data-ex).
Tabela 10. Os extremos vão de −86% a +169% num só dia, ligados, segundo a autora, a eventos de mercado, dividendos e pouca negociação de alguns fundos.
O que a teoria previa
A dissertação partiu de quatro hipóteses, todas com uma boa razão por trás. Aposte antes de ver o que os dados disseram.
Dos oito preços do campo, só três apareceram
Trigo e boi gordo em alta vieram seguidos de retornos um pouco maiores. O açúcar foi ao contrário. Milho, soja, café, algodão e frango não deixaram marca. Toque em cada bloco.
Altura = maior coeficiente significativo de cada variável no modelo final (Tabela 12, modelo 4; 4.749 observações de 39 fundos). Lê-se assim: se o preço sobe 1%, o retorno do fundo muda tantos por cento, no dia indicado.
Quando aparece, o efeito chega dias depois e é pequeno
Escolha um preço e quanto ele muda hoje. As barras mostram a mudança esperada no retorno de um FIAGRO em cada um dos pregões seguintes, segundo o modelo final. A faixa cinza é o sobe e desce típico de um fundo num só dia.
Coeficientes do modelo final (Tabela 12, modelo 4). A faixa usa o desvio-padrão do retorno diário dos fundos (2,18%, Tabela 10). Variáveis sem efeito significativo ficam em zero. Os atrasos contam pregões, não dias corridos.
Os preços explicam menos de 1% do sobe e desce dos fundos
Imagine mil partes de toda a variação diária dos retornos de um fundo ao longo do tempo. Os preços do campo e da economia, juntos, dão conta de menos de dez delas. O resto é o ruído do dia a dia do mercado.
O próprio fundo
Cerca de 76% da variação dos retornos vem de diferenças entre os próprios fundos: o que têm na carteira, o setor a que se expõem, a proteção contra riscos e a estratégia de gestão.
R² within da Tabela 12: 0,08% (só o mesmo dia, modelo 1), 0,83% (modelo 2) e 0,49% (modelo final). Fração da variância ligada às diferenças entre fundos (ρ = 0,76): modelo 1, seção 4.1. Pontos arredondados ao inteiro mais próximo. Mesmo pequeno, o conjunto das variáveis tem significância estatística (teste F).
Trocando a régua, só o açúcar se manteve
Para ver se os resultados dependiam dos dias extremos (como +169% ou −86%), a autora refez as contas com outro método, o LAD: em vez de somar os erros ao quadrado, soma os erros sem sinal, o que dá menos peso aos dias fora da curva.
Modelo principal: Tabela 12, modelo 4 (4.749 observações). LAD: Tabela 14, modelo 3 (27.317 observações). ↑ o fundo sobe junto; ↓ o fundo cai; "—" sem efeito significativo. Entre parênteses, o pregão em que o efeito aparece. Na Tabela 14, o efeito do dólar no 2º pregão tem coeficiente positivo e estatística t negativa; seguimos o coeficiente e o texto da autora.
Pagaram pelo risco, com um vale entre 2023 e 2024
Três índices comparam o que o fundo rendeu acima da Selic com o risco que correu. Acima de zero, o fundo pagou pelo risco; abaixo, não. Toque em cada semestre.
Tabelas 16 a 18. N = número de fundos no semestre. Retorno excedente = retorno do FIAGRO − Selic. Sharpe divide pela oscilação total; Sortino, só pela oscilação para baixo; Treynor, pelo beta (quanto o fundo acompanha o Ibovespa).
Investir no agro pelo FIAGRO não é apostar no preço da soja
Para a autora, os FIAGROs são uma classe de ativos com dinâmica própria: pouco ligada às commodities e também ao mercado de ações tradicional.
Para quem investe
- Estar exposto ao agronegócio não significa acompanhar o preço das commodities.
- Os FIAGROs podem ajudar a diversificar a carteira, com um comportamento diferente do mercado agrícola e da bolsa.
Para olhar um fundo
- O que mais pesa é o próprio fundo: carteira, qualidade do crédito, contratos e gestão.
- Na conta do retorno, o dividendo importa: é a principal forma de remuneração do cotista.
Para gestores e reguladores
- As evidências podem ajudar a aperfeiçoar a estrutura desses fundos.
- E a desenvolver o mercado de capitais voltado ao financiamento do agronegócio.
Para pesquisadores
- Separar os fundos pelo tipo de ativo que predomina na carteira.
- Usar uma janela de tempo maior e incluir qualidade do crédito, liquidez e índices de sustentabilidade.
Para a autora, o principal achado não são as poucas ligações que apareceram, mas o tamanho delas: bem menor do que a teoria levava a esperar de fundos ligados ao agronegócio.
O que esta pesquisa não diz
- Pouco tempo de história. Os FIAGROs existem desde 2021, e o período estudado tem pouco mais de quatro anos. · segundo a autora
- Fundos muito diferentes no mesmo saco. Há fundos de crédito, de terras e de outros ativos, com estruturas distintas, analisados juntos. · segundo a autora
- Curto prazo. O modelo olha a variação de cada dia e de até quatro pregões antes. Não diz nada sobre meses ou anos. · observação nossa
- Menos dias no modelo final. Com os atrasos, o modelo final usou 4.749 das 27.328 observações; o teste com outro método usou 27.317. · observação nossa, com dados das Tabelas 12 e 14
- Pouca ligação com a bolsa. A conclusão vem dos betas baixos que tornaram o índice de Treynor pouco informativo; os valores dos betas não aparecem no texto. · observação nossa
Créditos
PALHÃO, Jessica Paganotti. FIAGROS e commodities: análise de risco e retorno entre 2021 e 2025. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2026. Orientador: Prof. Dr. Denis Forte.
Pesquisa com apoio da CAPES. Revisão bibliométrica e sistemática na Web of Science (Biblioshiny), regressão com dados em painel e teste de robustez por LAD (Stata). Segundo a autora, o texto teve revisão linguística com apoio do ChatGPT. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; a revisão completa e as tabelas estão no texto original.