O professor e seu estagiário digital
Como e para quê professores de Administração usam a inteligência artificial generativa? Treze professores contaram o que ganham, do que desconfiam e como o próprio papel está mudando. Explicado em 14 telas.
Você deixaria um estagiário preparar sua aula?
Um dos professores entrevistados resumiu assim: “A IA é um assistente do professor. E como todas, um estagiário, digamos, né? […] eu preciso treinar.”
Imagine que você é professor. Para cada tarefa, escolha o que faria com esse estagiário. Depois veja o que os entrevistados disseram.
Exercício ilustrativo, criado para esta página. As falas são de professores entrevistados na pesquisa (Seção 5), identificados só pelo número da entrevista.
A IA já entrou na sala dos professores
Desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, a IA generativa se espalhou pelas escolas e universidades. Levantamentos recentes citados na dissertação mostram o tamanho disso.
Cartões: pesquisa da Fundação Itaú (2025) com estudantes, professores e gestores escolares, citada na Seção 1.3.1. Não são dados desta dissertação.
Gráfico: pesquisa da UFMG (Silva et al., 2025) com os 410 docentes que usam IA, citada no Capítulo 5. Uma pessoa podia marcar mais de uma opção. Não são dados desta dissertação.
Quase ninguém tinha perguntado aos professores de Administração
A autora vasculhou duas grandes bases de artigos científicos (Web of Science e Scopus) atrás de estudos sobre IA e professores de cursos de Administração. Passe o mouse em cada etapa.
- 102
resultados nas duas bases (51 em cada)
- 34
artigos de novembro de 2022 em diante, quando o ChatGPT foi lançado (após filtros de tipo e idioma)
- 23
artigos diferentes, sem contar os repetidos nas duas bases
- 15
traziam todos os termos da busca no título, no resumo ou nas palavras-chave
- 3
tratavam de fato do uso da IA por professores de Administração
A maior parte dos estudos olha para os alunos: como usam a IA nas provas e trabalhos e o que ela faz com o aprendizado. O lado do professor ficou quase sem resposta.
Fonte: Seção 3.4. Discos com área proporcional ao número de artigos.
13 professores, 8 instituições, uma longa conversa
A autora entrevistou professores de cursos de graduação em Administração, com perguntas abertas sobre como usam a IA, para quê, o que temem e o que mudou na forma de dar aula. Ela parou quando as respostas começaram a se repetir.
Foram 14 entrevistas. A primeira ficou de fora da análise porque o professor já não lecionava no curso de Administração. Fonte: Seções 3.1 e 3.3, Tabelas 1 e 5. A idade mediana (58 anos) é cálculo nosso.
De 65 palavras-chave a 4 ideias
As entrevistas foram transcritas e lidas em busca de padrões. De cada uma saíram cinco palavras-chave, apoiadas em trechos das falas. Elas foram agrupadas em códigos, os códigos em temas, e os temas viraram quatro conceitos. Clique numa camada.
Método: análise temática sistemática (Naeem et al., 2023), feita com apoio da ferramenta de IA NotebookLM e revisada pela autora. Fonte: Capítulos 4 e 5. O total de 65 palavras-chave (5 × 13) é contagem nossa.
“Ganhar tempo” é o que mais se repete
Cada linha é um professor; cada coluna, um assunto. 11 dos 13 falaram em otimizar tempo, agilidade ou produtividade. Logo atrás vêm os erros da IA e o medo de depender dela. Clique num quadrinho para ler a fala.
Contagem e agrupamento nossos, a partir das palavras-chave que a autora selecionou para cada entrevista (Seção 5). A autora afirma que o tempo foi destaque em todas as entrevistas.
Um estudo de caso que levava dias sai em 15 minutos
Uma professora contou que fazia um estudo de caso “em 2, 3 dias. Passei a fazer em 15 minutos”. A pesquisa chama isso de catalisação da eficiência: tarefas operacionais andam mais rápido e sobra tempo para o que exige atenção.
Escala em dias de calendário: 15 minutos ocupam cerca de 1% de um dia. A fala não diz quantas horas de trabalho havia em cada dia. Para os professores que dão aula em mais de uma instituição, o ganho de tempo pesa ainda mais (Seção 7). Fonte: Entrevista 14 e Tema 1.
O tempo ganho vem de usos bem concretos, quase todos ligados ao ensino, mais do que à pesquisa. Clique em cada um.
…mas ninguém confia 100%
Os mesmos professores que ganham tempo desconfiam do que a IA entrega e temem o que ela faz com o pensamento, deles e dos alunos. A pesquisa chama isso de vulnerabilidade cognitiva tecnológica. Os professores explicaram com imagens do dia a dia: clique em cada cartão.
Em nossa contagem, 8 dos 13 falaram de erros ou da necessidade de checar tudo, e 8 do risco de depender da ferramenta. Para se proteger, há quem só use a IA em assuntos que domina muito bem (Entrevista 14). Fonte: Seção 5 e Tema 2.
De dono da verdade a “elo seguro”
Com a IA na sala, a relação deixa de ser só entre professor e aluno: aparece um terceiro elemento. Para os entrevistados, o professor deixa de ser quem repassa conteúdo e passa a ser quem orienta, verifica e dá sentido ao que a máquina produz.
A pesquisa chama esse movimento de ressignificação docente mediadora. O temor do outro lado também apareceu: um professor acha que a IA pode reduzir vagas de professor (Entrevista 4). Fonte: Tema 3 e Seção 7.
Quatro ideias que se encaixam
Na base, para que a IA é usada: assistente e acelerador. No meio, a tensão que esse uso cria. No topo, a resposta que, segundo a autora, poderia superá-la: um professor mediador. Clique em cada conceito.
Desenho nosso a partir do texto da conceitualização e da conclusão: a dissertação descreve os quatro conceitos e a relação entre eles, mas não traz uma figura do modelo. Base teórica: a epistemologia da prática de Donald Schön (1983).
Se a IA sumisse amanhã, quase nada mudaria
Os professores reconhecem que a IA é um “caminho sem volta”. Mesmo assim, quando a autora perguntou como se sentiriam se ela não existisse, só um professor disse que se sentiria diferente. Os outros se sentiriam como sempre se sentiram.
A dissertação não identifica quem foi o professor. Fonte: Capítulo 5.
A reflexão existe, mas ainda é rasa
A IA levou os professores a repensar a prática, mas a autora interpreta que essa reflexão ocorre “de forma superficial e pragmática”: o foco é dar conta das demandas e “não ficar para trás”. Arraste o marcador para conhecer cada ponta da régua.
A régua é uma metáfora nossa. As duas pontas, superficial e emancipatória, vêm dos autores discutidos na dissertação (Brito, 2006; Reali e Reyes, 2009). Fonte: Seções 7 e 8.
E agora?
Administração é um dos cursos com mais alunos e formandos no Brasil. O jeito como seus professores lidam com a IA chega a muita gente, e o mercado espera que professores e alunos saibam usá-la.
Para universidades e faculdades
Muitos entrevistados disseram que suas instituições ainda não têm regras sobre o uso da IA. Sem diretrizes, cada um decide sozinho, e o próprio Ministério da Educação alerta que isso pode aprofundar desigualdades e gerar problemas éticos.
Dissertação, Capítulo 5Para professores
Os próprios entrevistados dão as regras práticas: tratar a IA como estagiário que precisa de supervisão, revisar tudo e usá-la só em conteúdos que se domina. Em sala, ela pode virar um “instrumento de alerta crítico” para mostrar aos alunos onde a máquina erra.
Falas dos entrevistados · seleção nossaPara estudantes
A IA é “um meio e não um fim”. O medo mais repetido pelos professores é o aluno trocar o raciocínio pela ferramenta. Usar a IA sem perder a capacidade de pensar criticamente é a competência que eles esperam desenvolver.
Leitura nossa a partir do Tema 2Para os cursos de Administração
Os cursos tendem a priorizar o “aprender a fazer”. Para a reflexão sobre a IA ir além do pragmático, a autora sugere que o sistema de ensino ofereça tempo e espaço para os professores pensarem a própria prática, não só cursos de ferramentas.
Discussão da dissertação (Seção 7)O que esta pesquisa não diz
- É um retrato de 13 pessoas, não do país. Pesquisas qualitativas buscam profundidade, não representatividade: 12 dos 13 professores trabalham no estado de São Paulo.
- Uma geração específica. Os entrevistados têm de 45 a 71 anos e se formaram antes da IA generativa existir. Professores mais jovens podem ver a ferramenta de outro jeito.
- Um perfil concentrado. 10 dos 13 são homens e 11 dos 13 dão aula em instituições privadas (observação nossa a partir da Tabela 5).
- É o que os professores contam. A pesquisa reúne percepções relatadas em entrevista, não a observação das aulas.
- Próximos passos sugeridos: ouvir professores de outras regiões e de países sem diretrizes sobre IA, e entender como a IA poderia provocar reflexões profundas sobre a prática, e não só pragmáticas.
SÁ, Adriana Fontes. Inteligência artificial no ensino superior: uso pelos docentes do curso de Administração. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) — Programa de Pós-Graduação em Administração de Empresas, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2026. Orientador: Prof. Dr. Diógenes de Souza Bido.
Pesquisa qualitativa e exploratória, com 13 entrevistas semiestruturadas analisadas por análise temática. Banca: Prof. Dr. Diógenes de Souza Bido, Profa. Dra. Janette Brunstein (Mackenzie) e Prof. Dr. Dirceu da Silva (Unicamp).
Esta versão interativa simplifica o trabalho para o público em geral; o referencial teórico, o roteiro de entrevista e as falas completas estão no texto original.