Recuperação judicial salva um clube de futebol?
Clubes brasileiros acumularam dívidas por décadas. Desde 2021, a lei deixa que eles peçam recuperação judicial e que virem empresa, a SAF. A dissertação acompanhou oito clubes de 2020 a 2024 para ver o que de fato melhorou a saúde financeira deles. Explicada em 12 telas.
Um bloco por clube; a altura é o Indicador de Saúde Financeira (ISF) de cada ano. À esquerda, os quatro clubes em recuperação judicial; à direita, os quatro de comparação. Azul: SAF · vermelho: associação.
Um clube pode quebrar de três jeitos
A dissertação parte de uma distinção comum em finanças e em direito: a crise pode estar no resultado, no caixa ou no balanço. Cada uma pede um remédio diferente.
No futebol brasileiro, segundo o autor, gestões guiadas por interesses políticos, contratações caras e dívidas com impostos, salários e empréstimos de curto prazo costumam alimentar as três ao mesmo tempo.
Barras ilustrativas, sem valores reais. A ligação de cada crise com um indicador do termômetro (tela 05) é leitura nossa.
Em 2021, a lei abriu duas portas para os clubes
Até então, a maioria dos clubes era associação sem fins lucrativos. Para os tribunais, a lei de recuperação e falência (Lei 11.101/2005) só valia para empresas. Clube endividado enfrentava as cobranças na Justiça, uma a uma.
A Lei da SAF (Lei 14.193/2021) mudou isso. Compare antes e depois e toque em cada porta.
Oito clubes, dois cortes
O autor escolheu quatro clubes em recuperação judicial (RJ) e quatro parecidos que não pediram RJ. Em cada grupo, dois viraram SAF e dois seguem como associação. Assim dá para separar o efeito da RJ do efeito da forma do clube.
Todos têm mais de 50 anos, jogaram as séries A ou B e publicam balanços. Nos casos de RJ, o processo já tinha mais de dois anos. Toque num clube.
Fontes: demonstrações financeiras publicadas pelos clubes e relatórios mensais dos administradores judiciais (RMAs), além de documentos dos processos. Os dados foram coletados à mão e calculados em planilha, com dupla checagem e gráficos feitos com apoio de IA, segundo o autor.
Um termômetro de 0 a 1 para a saúde do clube
O autor criou o Indicador de Saúde Financeira (ISF): a média de cinco indicadores, cada um com o mesmo peso (20%).
Cada indicador vai de 0 (o pior ano do próprio clube no período) a 1 (o melhor); valores negativos contam como zero. Mexa nos controles ou escolha um ano real.
Fórmula 1 e Tabelas 1 e 2 da dissertação. Faixas: até 0,33, insolvência; de 0,34 a 0,66, alerta; de 0,67 a 1, solvência. Os anos reais usam valores lidos dos Gráficos 1 a 5 (aproximados).
Na recuperação judicial, o termômetro subiu e desceu
Em 2021, os quatro clubes em RJ estavam na faixa de insolvência. Três chegaram ao topo da escala em 2023, e todos recuaram em 2024.
Fora da RJ, as trajetórias foram mais variadas. Troque o grupo e toque num clube para ler o caso.
Fora da RJ: Gráfico 11 da dissertação. Em RJ, a dissertação não traz gráfico do ISF; a média dos cinco indicadores foi refeita por nós com os valores lidos dos Gráficos 1 a 5. Todos os valores são aproximados. Linha cheia: em RJ; tracejada: fora.
O caixa reagiu primeiro; lucro e patrimônio oscilaram
Na RJ, as cobranças ficam suspensas e as dívidas são renegociadas. Por isso, segundo a dissertação, a liquidez e a cobertura de juros respondem mais rápido. O patrimônio e o retorno sobre o ativo dependem de mudanças mais profundas.
Cada bloco é um indicador num ano; a altura vai de 0 (pior ano do clube) a 1 (melhor). Escolha o clube e toque num bloco.
Ver os valores em tabela
Valores normalizados lidos dos Gráficos 1 a 5 da dissertação (aproximados).
A recuperação judicial deu fôlego, mas o fôlego não durou
Para o autor, a RJ sozinha não foi eficiente para melhorar de forma sustentada a saúde financeira dos clubes. Ela alivia o curto prazo, mas os indicadores de lucro, juros e patrimônio continuam pressionados.
Compare o melhor momento (2023) com o ano seguinte. Toque num par de blocos.
ISF refeito por nós a partir dos Gráficos 1 a 5 (aproximado); as contagens acima são nossas. O texto da dissertação também registra que três dos quatro clubes chegaram ao estágio de solvência em 2023 e que houve retração em 2024.
A forma do clube pesou mais que o processo
Para o autor, o modelo societário influenciou o desempenho: os clubes que viraram SAF, mesmo em RJ, mostraram trajetórias mais favoráveis e menos instáveis; os associativos em RJ ficaram presos a ciclos de recuperação incompleta.
Veja como cada clube terminou e quanto oscilou. Comece pelos clubes em RJ, que têm o mesmo processo e diferem só na forma.
"Quanto oscilou" = maior ISF menos menor ISF do clube entre 2020 e 2024. Médias e diferenças são contas nossas com os valores aproximados das telas anteriores. Barras listradas: clubes fora da RJ (ISF do Gráfico 11); cheias: em RJ (ISF refeito por nós).
Capital, gestão separada e transparência: o que a SAF traz
Por que a forma do clube faria diferença? O autor aponta os mecanismos abaixo. Escolha um aspecto.
Seções 3.2, 5.7.2 e 6 da dissertação. A SAF, nas palavras do autor, não elimina os riscos financeiros, mas amplia a chance de uma recuperação sustentável.
Nem fora da RJ, nem como SAF, a vida ficou fácil
Faça sua aposta e vire o cartão.
A lei compra tempo; a gestão decide o que fazer com ele
Dirigentes de clubes
A RJ suspende cobranças e reorganiza dívidas. Sem mudar a forma de gerar dinheiro, o alívio tende a durar pouco, como no Avaí em 2024.
Investidores
Capital novo e governança ajudaram a estabilizar os clubes-empresa estudados, mas não garantiram lucro na operação: o Botafogo seguiu com prejuízo operacional.
Legisladores e reguladores
Para o autor, a recuperação depende menos de instrumentos jurídicos isolados e mais de governança, estrutura e disciplina financeira. Ele cita a falta, no Brasil, de regras aplicadas como o fair play financeiro europeu.
Torcedores (leitura nossa)
Um ano bom no balanço não é cura. Vale olhar se o clube passou a lucrar com a operação, a cobrir os juros e a recompor o patrimônio.
O que esta pesquisa não diz
- Oito clubes de porte médio, em cinco anos: podem não representar todo o futebol brasileiro, e o período é curto para ver uma recuperação completa. · segundo o autor
- Só indicadores financeiros: gestão, governança e presença de investidores não foram medidas diretamente. · segundo o autor
- Pesos iguais no ISF: o autor sugere revalidar a fórmula e os pesos em novos estudos. · segundo o autor
- Comparação de casos, sem teste estatístico. O ISF compara cada clube com ele mesmo, então mostra melhor subidas e quedas do que qual clube é mais saudável. Os valores aqui foram lidos dos gráficos da dissertação. · observação nossa
Créditos
SALMAZO, Rodolfo Garcia. Recuperação judicial de clubes de futebol no Brasil: estudo de caso comparado entre os modelos associativo e de Sociedade Anônima do Futebol – SAF. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2026. Orientador: Prof. Dr. Wilson Toshiro Nakamura.
Linha de pesquisa em Finanças Estratégicas. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as fórmulas, os gráficos e a análise de cada clube estão no texto original.