O que o microcrédito vale para quem o recebe
Empresas sociais dizem gerar valor social, mas raramente perguntam a quem recebe. A tese ouviu 30 microempreendedores do Nordeste que renovam seus empréstimos e encontrou dois jeitos de viver esse dinheiro: para o negócio sobreviver ou para ele florescer. Explicada em 12 telas.
Todo mundo fala em valor social, quase ninguém pergunta a quem recebe
Criar valor social é a razão de ser do empreendedorismo social. Mas o que é isso? A autora leu 53 artigos sobre o tema, 42 internacionais e 11 brasileiros. A maioria fala da importância de criar valor social sem dizer o que ele é, e alguns o tratam como sinônimo de impacto social. Escolha o que destacar:
Revisão de literatura da tese (Scopus, Spell e Scielo; seção 2.3). A tese conta as definições só nos 42 internacionais. Um cubo por artigo; a posição de cada um é ilustrativa.
No papel, o microcrédito é dinheiro para o negócio, com alguém acompanhando
No Brasil, microcrédito quer dizer crédito produtivo (para a atividade que gera renda) e orientado (concedido depois que um agente de crédito visita o negócio e avalia a atividade). A pesquisa entrou na carteira de clientes de uma empresa social de microcrédito, com fins lucrativos, que recebe investimento de risco de um fundo filantrópico e atua em quatro estados do Nordeste. Na tese ela se chama MC1. Percorra o ciclo:
Ciclo desenhado por nós a partir da definição de microcrédito produtivo e orientado (Haus, 2008, e Medida Provisória 226, de 2004) citada na tese. A tese diz que a nova avaliação é o esperado a cada renovação.
A pesquisadora foi até a casa e o negócio de 30 clientes
Em janeiro e fevereiro de 2021, na segunda onda da Covid-19, a autora viajou a quatro estados para entrevistar, pessoalmente, clientes da MC1 com pelo menos uma renovação de microcrédito. A maioria trabalha onde mora, e muitas conversas aconteceram com a família, vizinhos e fregueses em volta. Mude o recorte:
Perfis das Tabelas 5 a 8 da tese; as contagens por cor são nossas. Os agentes de crédito escolheram os clientes, mas muitos não estavam em casa e foram trocados na hora por outros de perfil parecido. A ordem dos cubos em cada placa não corresponde aos códigos da tese.
A pergunta não foi se o crédito funciona, mas como cada pessoa o vive
A fenomenografia nasceu na educação para descobrir as poucas maneiras, qualitativamente diferentes, como as pessoas entendem a mesma coisa. Não julga quem está certo: agrupa as experiências. A autora leu e releu as entrevistas em três passadas, junto com outras duas pesquisadoras. Toque numa passada:
1ª passada · 10 entrevistas do Ceará
2ª passada · as 30 entrevistas
3ª passada · refinamento
12 concepções iniciais da Tabela 9; categorias da seção 3.7 e da Tabela 11. A tese não diz a qual categoria final cada concepção inicial levou, por isso as listas aparecem separadas.
Leia o que contam e diga: o crédito mantém ou faz crescer?
A análise chegou a dois grupos. Em um, o microcrédito é o recurso para o negócio sobreviver. No outro, é o recurso para ele florescer. Tente classificar seis trechos de entrevistas como a autora fez:
Falas da seção 4.1, com os códigos da tese (BF1 a BF30) e a classificação da Tabela 11. Cortes [...] nossos, também onde a fala indicaria o gênero da pessoa.
Três diferenças separam os dois grupos
10 pessoas vivem o microcrédito como recurso para a sobrevivência do negócio; 20, para o florescimento. A tese chama de categorias críticas as três diferenças que separam um grupo do outro. Escolha uma:
Tabela 11 e seção 4.1. A autora usa a pirâmide de necessidades de Maslow (1943) para descrever o que o dinheiro resolve. Nenhum grupo foi associado à camada do topo; a pirâmide 3D é desenho nosso.
Florescer inclui sobreviver: não é melhor, é mais amplo
Quem vive o crédito como florescimento também cuida da manutenção do negócio, e vai além: expande e diversifica. Quem vive como sobrevivência não contou nenhuma expansão. Por isso um círculo cabe dentro do outro. A tese avisa que essa hierarquia não é juízo de valor sobre as pessoas. Toque nas partes do desenho:
Redesenho da Figura 8 da tese (espaço de resultados). A autora propõe incluir no desenho, além dos dois modos, as diferenças e o que é comum, coisa que as teses brasileiras de fenomenografia que ela encontrou não faziam.
Renovar é questão de honra, e ninguém fecharia o negócio sem o crédito
Duas experiências aparecem igual nos dois grupos. Ver o dinheiro da renovação cair na conta é a prova de ter o nome limpo, sem restrição, o que para todos é questão de honra. E, se o microcrédito acabasse, todos seguiriam com o negócio, nem que fosse vendendo um bem ou voltando ao agiota. Escolha:
Quem sobrevive acumula contratos; quem floresce vê o valor crescer
A tese não cruza o perfil dos entrevistados com os dois grupos. Fizemos a conta juntando as tabelas de perfil com a lista de quem está em cada grupo. São poucas pessoas, então é um retrato, não uma prova, mas ajuda a ver de quem se está falando. Escolha a medida:
Contagem nossa, a partir das Tabelas 5 a 8 (perfil) e da Tabela 11 (grupos). Percentuais sobre o tamanho de cada grupo; valores em reais são a mediana do grupo (metade pegou mais, metade menos). Colunas na mesma escala dentro de cada medida.
Nenhum dos dois jeitos de viver o crédito reflete o que a empresa promete
A pergunta da tese era se os modos de viver o microcrédito refletem os objetivos de quem o oferece. A resposta da autora é não. Vire cada cartão para comparar a promessa com o que os relatos mostram:
“Somente isso não vai ‘mudar o Brasil’, apesar de que poderá continuar favorecendo o crescimento das empresas ofertantes de microcrédito.” · a autora, sobre renovar o crédito só porque o cliente paga em dia
Seção 4.3 e considerações finais. A explicação do agente de crédito (menos visitas na pandemia e renovação automática para quem paga em dia) foi dada à pesquisadora no campo. As falas vêm das entrevistas.
O valor social se mede na voz de quem recebe
A tese propõe olhar os produtos de empresas sociais como valores sociais: eles valem pelo significado que os beneficiários lhes dão ao usá-los. Comparar esse significado com a missão é uma forma de avaliar o impacto social, e a autora sugere que outras empresas sociais façam o mesmo.
Para empresas de microcrédito
- Voltar a visitar e avaliar o negócio também na renovação, não só no primeiro crédito.
- Somar ao crédito orientação financeira e de gestão, sobretudo para quem vive o crédito como sobrevivência, e espaços para os microempreendedores trocarem entre si.
- Rever o crédito para quem já não precisa dele, que pode faltar a quem precisa.
Para investidores sociais
- Saber, pela voz dos clientes, se o dinheiro destinado a uma demanda social está cumprindo o que prometeu.
- Pagar em dia mostra que a dívida é honrada, não que o crédito mudou a vida de quem a pegou.
Para pesquisa e avaliação
- Usar o espaço de resultados como avaliação qualitativa de qualquer produto ou serviço de empresa social.
- Repetir o estudo em outras regiões e em favelas, para ver se surgem modos mais amplos de viver o crédito.
O que esta pesquisa não diz
- Quantos clientes vivem cada modo. São 30 pessoas de uma empresa, em quatro estados do Nordeste; a fenomenografia busca a variedade de experiências, não proporções. Outras regiões podem mostrar outros modos. · segundo a autora e observação nossa
- Se o crédito tirou alguém da pobreza. A tese ouve como as pessoas vivem o crédito; não mede renda antes e depois. · observação nossa
- Entrevistas com a empresa por perto. Os agentes indicaram os clientes (muitos foram trocados na hora), supervisor e agente acompanharam as conversas e os clientes viam a pesquisadora como funcionária da MC1. A autora diz que as respostas foram espontâneas. · observação nossa
- Um momento atípico. O campo foi feito na pandemia, sem entrevista piloto; o próprio agente atribuiu parte da falta de visitas à Covid-19. · segundo a autora
Créditos
CHUMBO, Rafaela Andrade Nascimento. Concepções de valor social segundo os beneficiários: pesquisa fenomenográfica no campo do empreendedorismo social. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) · Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2022. Orientadora: Profa. Dra. Janette Brunstein.
Entrevistas gravadas com termo de consentimento e com autorização do fundador da empresa estudada, cujo nome a tese não revela. Bolsa CAPES (PROSUC). A autora agradece também à ex-orientadora, Profa. Dra. Silvia Marcia Russi De Domenico, que acompanhou a pesquisa até o depósito. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral.