O seu perfil de investidor diz como você cuida do dinheiro?
Bancos perguntam quanto você aceita perder antes de oferecer um investimento. A tese juntou essas perguntas a um teste de finanças e a um questionário de valores pessoais, respondidos por 630 pessoas, para ver o que mais se liga ao jeito de lidar com o dinheiro no dia a dia. Explicada em 12 telas.
Altura = força da ligação de cada fator com o comportamento financeiro (o β da Tabela 26, sem o sinal). Azul: perfil do investidor. Vermelho: poder e prazer, que pesaram para menos. Listradas: sem efeito claro.
O banco pergunta quanto você aguenta perder, mas não pergunta o que você valoriza
Desde 2013, a regra da CVM obriga quem vende investimentos a conhecer o cliente: objetivos, situação financeira e conhecimento. É a análise do perfil do investidor, ou suitability. Cada banco faz o próprio questionário.
A tese adaptou as cinco perguntas do questionário do Itaú, uma das instituições que apoiaram a pesquisa, e deu cinco respostas possíveis a cada uma. Responda e veja o que as 630 pessoas marcaram.
Isto não é a classificação do banco (conservador, moderado, arrojado, agressivo): o banco também olha o patrimônio e as movimentações da conta, o que a pesquisa não teve. Não é recomendação de investimento.
Dez valores que todo mundo tem, em doses diferentes
O psicólogo Shalom Schwartz organizou os valores humanos numa roda: os vizinhos combinam entre si, os opostos puxam para lados contrários (tradição × novidade, por exemplo).
A tese usou 21 frases sobre uma pessoa imaginária (o PVQ-21): o participante dizia, de 1 a 5, o quanto ela se parecia com ele. Cada valor foi comparado com a média da própria pessoa: conta o que ela valoriza mais do que os outros valores dela.
Ordem e grupos da roda segundo o Quadro 7 da tese (Schwartz, 2012). Clique num valor. Frases riscadas saíram na análise porque mediam mal o valor (Tabela 20).
Os estudos sobre perfil de investidor olhavam para personalidade e risco, não para valores
Em agosto de 2022, a autora buscou artigos sobre perfil do investidor e comportamento nas duas maiores bases científicas. De 364 resultados, sobraram 18 que estudavam o que vem antes da decisão de investir.
Tema principal dos 18 artigos (Quadro 4; um artigo pode ter mais de um tema). Em vermelho, o que a autora apontou como pouco estudado. Nenhum ligava valores pessoais ao comportamento financeiro, o que a tese assume como sua lacuna.
Um questionário on-line, por três caminhos, entre março e junho de 2023
O convite circulou nas redes sociais da pesquisadora, numa empresa júnior do Mackenzie em Campinas e entre clientes e funcionários do Itaú. Só valiam respostas de quem morava no estado de São Paulo.
Larguras proporcionais ao número de questionários (seções 4.4 e 5.1.1). Saíram 44 pessoas de fora de São Paulo e 21 que deram a mesma resposta em mais de 80% das frases de valores. O questionário foi testado antes com 35 pessoas, em 2021, e a análise usou equações estruturais (SmartPLS).
Gente com estudo, renda e conhecimento de finanças bem acima da média
Metade homens, metade mulheres, idade média de 41 anos. Mas 54% tinham pós-graduação e 43% ganhavam mais de R$ 10 mil por mês. No teste de cinco perguntas de finanças, 72% acertaram quatro ou cinco.
A autora lembra que a amostra veio, em boa parte, da própria rede, que é da área financeira, e de pessoas ligadas a banco. Por isso os resultados valem para este grupo, não para todos os brasileiros.
Doze setas apontando para o mesmo alvo: o cuidado com o dinheiro
O alvo é o comportamento financeiro, medido por cinco hábitos (com que frequência, de nunca a sempre). A tese apostou que cada um dos dez valores teria alguma ligação com ele, e que o conhecimento de finanças e o perfil de investidor teriam ligação positiva.
Sua vez: escolha até três fatores que você acha que pesaram de verdade. A resposta vem na próxima tela.
Três setas passaram no teste: o perfil para mais, poder e prazer para menos
Cada linha é um fator. O ponto é a força da ligação (β, em desvios-padrão); a barra é a faixa onde o valor real provavelmente está. Se a faixa cruza o zero, não dá para dizer que há efeito.
β e p das Tabelas 26 e 27. Faixa de 95% = β ± 1,96 × erro-padrão (conta nossa). Clique numa linha.
O questionário de perfil explica quase tudo o que o modelo explica; os valores somam um pouco
Juntos, os fatores explicam 28,5% das diferenças de hábitos entre as pessoas, um resultado considerado alto em ciências sociais. Tire os dez valores do modelo e a explicação cai para 25,8%.
A comparação usa o modelo com idade, sexo e escolaridade, como fez a tese: 25,8% sem os valores (Figura 7) e 28,6% com eles (Tabela 27). Sem os controles, o modelo explica 28,5% (Tabela 26). A diferença de 2,8 pontos é conta nossa; a tese fala em “aumento de 3%”. O resto depende de coisas que o modelo não mediu.
Altura = tamanho do efeito de cada fator (f², Tabela 26): quanto a explicação piora se ele sai do modelo. Perfil 0,245; poder 0,017; prazer 0,011; conhecimento 0,005 (sem efeito claro). Os outros oito valores ficaram entre 0 e 0,003.
Quem dá mais importância a dinheiro, status e prazer cuida menos do orçamento
Poder e hedonismo (o prazer, a gratificação para si) ficam do mesmo lado da roda, o do foco pessoal. Os hábitos medidos pela tese são de planejamento: orçar, guardar, não gastar tudo. Para a autora, quem valoriza os prazeres da vida tende a ser menos controlado com o dinheiro.
Tudo em desvios-padrão, a partir da média do grupo. Cada barra = β da Tabela 26 × o valor escolhido; o total é a soma (conta nossa). Mostra o tamanho relativo das ligações, não uma previsão para uma pessoa nem uma relação de causa.
Saber mais de finanças não fez diferença nos hábitos, pelo menos neste grupo
Vários estudos anteriores mostram que quem entende de juros, inflação e risco cuida melhor do dinheiro. Antes de ver: neste grupo, quem acertou mais perguntas de finanças...
Pessoas por número de acertos nas cinco perguntas de finanças (Tabela 18): risco e retorno, juros, renda fixa, orçamento e inflação. Quase todos ficaram no alto da régua.
O que a pesquisa sugere para quem pergunta e para quem responde
Bancos e corretoras
Acrescentar ao questionário de perfil perguntas sobre valores e outros aspectos psicológicos, para conhecer melhor o cliente além dos dados de renda, patrimônio e risco.
Reguladores
A autora nota que o suitability ainda é incipiente: não há questionário padrão e cada instituição faz o seu, sem transparência sobre como ele é montado e analisado, o que dificulta melhorá-lo.
Educação financeira
Conhecer os valores de grupos sociais pode orientar políticas públicas de educação financeira. Leitura nossa: ensinar conceitos pode não bastar quando o que pesa nos hábitos é o que a pessoa valoriza.
Pesquisadores
Repetir com uma amostra maior e aleatória, em outros momentos do país, testar outras técnicas usadas com valores (escalonamento multidimensional) e somar traços de personalidade ao modelo.
O que esta pesquisa não diz
- Que vale para todos. A amostra é de conveniência, com muita gente da área financeira e de banco, alta escolaridade, renda alta e bom conhecimento de finanças. · segundo a autora
- Como o banco classifica você. A pesquisa usou só as perguntas do perfil; o processo do banco também usa patrimônio e movimentações. · segundo a autora
- Causa e efeito. Tudo foi respondido num só momento, e os hábitos são os relatados pela própria pessoa. · observação nossa
- Uma medida fina dos valores. Cada valor foi medido por uma ou duas frases, três ficaram com uma só depois dos ajustes, e vários tiveram confiabilidade baixa (Tabela 22). · observação nossa
- Que o perfil e os hábitos são coisas bem separadas. Uma das perguntas do perfil, o momento de vida (orçamento no vermelho, equilibrado, construindo patrimônio...), é a que mais anda junto com os hábitos (correlação 0,47 na Tabela 24). · observação nossa
Créditos
SOUZA, Manuela Santin de. O perfil do investidor determina seu comportamento financeiro? Uma análise a partir de seus valores pessoais. Tese (Doutorado em Administração de Empresas), Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2023. Orientador: Prof. Dr. Denis Forte.
Com bolsa do Instituto Presbiteriano Mackenzie, apoio do MackPesquisa e ajuda do Banco Itaú na coleta. Análises no SmartPLS 4. Esta versão simplifica o trabalho; as tabelas completas estão no original.
Não é recomendação de investimento.