A gaiola dourada dos aplicativos de transporte
Uber e 99 prometem liberdade e ganho a quem dirige. Lendo os sites das empresas, ouvindo 8 motoristas de São Paulo e os comentários de uma enquete da Câmara dos Deputados, a tese mostra que as plataformas promovem e violam a dignidade dos motoristas ao mesmo tempo. Explicada em 12 telas.
Um aplicativo não é neutro
A tese parte do filósofo Andrew Feenberg. Para ele, há quatro jeitos de pensar a tecnologia, conforme duas perguntas. Responda e veja onde você cai:
Dignidade promovida
reconhecimento, independência, cortesia, nivelamento, capacitação…Dignidade violada
indiferença, ignorar, suspeita, exploração, restrição, trapaça…Quadro das quatro visões: Tabela 5 da tese (Feenberg, via Dagnino e Neder). Elementos de dignidade: Tabelas 1 a 3 (Jacobson, 2009), com 24 formas de violar e 23 de promover a dignidade (contagem nossa). Para Jacobson, a dignidade se ganha e se perde nos encontros entre pessoas.
Três fontes de texto lidas como pistas
O método vem do linguista Norman Fairclough: ler as palavras que cada um escolhe, o que elas dão por certo e quem aparece fazendo o quê, para achar a ideologia por trás do texto. O autor conhece o assunto por dentro: no mestrado, dirigiu para a Uber e a 99 por um ano. Toque numa fonte:
Enquete da Câmara sobre o PLP 12/2024, aberta em 05/03/2024, com respostas até 27/04/2024 (seção 6.1.3). A área de cada disco é proporcional ao número. 1.824 = 1.005 + 1.446 − 627 (conta nossa).
As plataformas vendem ganho e liberdade, e não falam em trabalho
Nos textos que convidam a ser motorista, o autor achou dois apelos: ganho e liberdade. Por baixo deles, a ideia do empreendedor de si mesmo, que responde sozinho pelo próprio sucesso. Toque nas palavras sublinhadas:
Trechos da Tabela 14 e do Anexo C, coletados nos sites das empresas durante a pesquisa. As leituras de cada palavra resumem a análise da seção 7.2.
Os motoristas repetem a promessa das plataformas
Leia cada frase e diga: saiu do site de uma plataforma ou da boca de um motorista?
Frases das Tabelas 14 e 15 (E1 a E8 = entrevistas; C55 = comentário da enquete). Para o autor, os motoristas naturalizam o discurso das empresas: E4 chama a liberdade de horário de a parte de dignidade
.
Quem dirige carro alugado sai de casa devendo
O cara todo dia sai devendo 200 reais, que é 100 do aluguel e 100 da gasolina
, conta E7, que roda com o próprio carro, a gás. Mova o faturamento do dia e compare o que sobra nos dois casos, com os números dessa fala:
Ilustração com os valores de uma fala (Tabela 16, E7); não inclui manutenção, seguro nem a parcela de quem financia. Perfil: Tabela 7, contagens nossas; a ordem das caixas não segue os códigos. Uma pesquisa citada pela tese (Callil e Pinacaço, 2023) estima que 22% dos motoristas de aplicativo usam carro alugado, 54% financiado e 23% quitado.
Quando o aplicativo liga, a liberdade encolhe
A liberdade existe, diz a tese, mas do lado de fora: escolher o dia e a hora de ligar o aplicativo. Ligado, o motorista entra num sistema de taxas, notas e punições que ele não vê por dentro. E as contas a pagar obrigam a ficar ligado. Ligue e desligue:
O autor chama isso de gaiola dourada: os benefícios são reais até certo ponto, e é por eles que a pessoa não consegue sair.
Mecanismos e falas das Tabelas 17 a 21 (seção 7.3); liberdade off-line e controle on-line nas seções 7.5 e 8. Desenho nosso.
Numa corrida de R$ 100, a plataforma fica com quanto?
Primeiro, dê o seu palpite no controle. Depois toque nas marcas: em vermelho, o que os motoristas contam que a plataforma tira; em azul, o que pedem nos comentários.
Relatos e pedidos das Tabelas 19, 20 e 23. São percepções de motoristas, não dados das empresas, que a tese não acessou. A inDrive cobra taxa fixa de 10%, segundo a tese, mas é pouco usada pelos entrevistados por falta de segurança e de suporte. Cada cubo vale R$ 1.
Escolher a corrida virou um cálculo contra o relógio
Cada motorista cria uma regra para não rodar no prejuízo. Escolha uma das regras que os entrevistados contaram e decida cada chamada antes que o tempo acabe:
Chamadas inventadas por nós, para ilustrar. As regras são de E2 e E7 (R$ 1 por minuto) e de E8 (R$ 2 por km), na Tabela 22; os 10 segundos são de E3 e o bloqueio depois de três recusas, de E7 (Tabelas 18 e 21). O tempo foi esticado para 12 segundos.
O que a enquete disse da lei que prometia direitos aos motoristas
Em 2024, a Câmara abriu uma enquete sobre o PLP 12/2024, projeto que regula o trabalho de motorista de aplicativo com contribuição à previdência e outros direitos. Palpite: que parte das respostas discordou totalmente?
Figura 1 da tese (página da Câmara em 27/04/2024). A enquete é aberta: qualquer pessoa vota, sem amostra, e não se sabe quantos votantes são motoristas (observação nossa). Os rótulos dos 153 comentários são do autor (Anexo D); a contagem é nossa.
A mesma tecnologia pode ser refeita para respeitar quem dirige
Feenberg descreve quatro pares de momentos: num lado, a tecnologia trata as pessoas como coisas; no outro, devolve a elas contexto, ética e voz. Para cada par, a tese faz propostas. Vire as chaves:
Proposições da seção 7.5. São reflexões do autor a partir das análises; não foram testadas com plataformas nem motoristas.
Promover e violar a dignidade ao mesmo tempo
Para as plataformas
- Mostrar quanto cada corrida desconta e fixar um teto de taxa conhecido.
- Explicar bloqueios e notas, com um caminho para o motorista contestar.
- Deixar recusar corridas sem punição e ouvir os motoristas nas regras do dia a dia.
Para políticas públicas
- Regular olhando o que os motoristas pedem: taxa, valor por km, segurança e transparência, e não só a previdência.
- Lembrar que quem dirige com carro alugado tem menos liberdade de escolha.
Para quem dirige e para a pesquisa
- Fazer a conta com todos os custos, não só com o que cai no aplicativo.
- A tese propõe juntar a teoria crítica da tecnologia e a análise crítica do discurso para estudar mudança social; sugere criar uma escala e uma cartilha de práticas dignas.
O que esta pesquisa não diz
- Quantos motoristas pensam assim. São 8 entrevistas em São Paulo, num só momento; o autor considera que os comentários da enquete ampliam o alcance. · segundo o autor
- O que pensam as empresas. Os gestores da Uber e da 99 não foram entrevistados; a voz delas vem dos sites. · segundo o autor
- Quanto as plataformas cobram de fato. Taxas de 35% a 60% são relatos de motoristas, não dados das empresas. · observação nossa
- A opinião de todos os motoristas sobre o projeto de lei. A enquete é aberta e não é uma amostra; os 153 comentários analisados foram escolhidos por palavras-chave. · observação nossa
Créditos
PORTES, Jerônimo Henrique. Discursos de (in) dignidade das plataformas digitais de mobilidade: uma análise à luz da Teoria Crítica da Tecnologia. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) · Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2024. Orientadora: Profa. Dra. Maria Luisa Mendes Teixeira.
Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Mackenzie (CAAE 73351823.9.0000.0084). Isenção integral de mensalidades pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie. Entrevistados identificados só pelos códigos da tese. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral.