Quem forma os professores para a sustentabilidade?
Muitas universidades têm um Centro de Ensino e Aprendizagem, que ajuda os professores a ensinar melhor. A tese olhou os Centros de 101 universidades de destaque em rankings de sustentabilidade e perguntou se eles levam a educação para o desenvolvimento sustentável a todos os professores. Por enquanto, quase nunca. Explicada em 12 telas.
Ensinar sustentabilidade não é só acrescentar conteúdo
A educação para o desenvolvimento sustentável (EDS) quer formar pessoas capazes de enfrentar desafios ambientais, sociais e econômicos. A tese defende que isso pede mais do que uma aula a mais: pede rever pressupostos, valores e visão de mundo.
Para isso, ela usa a teoria da aprendizagem transformadora, de Jack Mezirow. Nela, a mudança começa com um dilema desorientador, algo que abala o jeito como a pessoa entende o mundo, e passa pela reflexão crítica sobre as próprias crenças.
“A diferença entre um futuro sustentável e um futuro caótico é a aprendizagem.” · Stephen Sterling (2001), na epígrafe da tese
Fases conforme o Quadro 7 da tese (Mezirow, 1991, 1997, 2000). A comparação “só informar” é uma leitura nossa para ilustrar a diferença.
Escalar é ir mais longe e mais fundo
Os Centros de Ensino e Aprendizagem existem há cerca de 50 anos e ganharam fama por cuidar da qualidade do ensino: oferecem formação, consultoria e espaço para os professores experimentarem novas práticas. Cada Centro chega a muitos professores, e cada professor a muitos alunos.
Por isso a tese os vê como um caminho para escalar a EDS. E escalar, para a autora, não é só ter mais Centros ou mais programas: é também a profundidade com que eles mudam as práticas e a formação dos professores.
Esquema ilustrativo: os números de professores e alunos são inventados, só para mostrar a ideia.
Uma lupa sobre os sites de 101 universidades de destaque
A autora não entrevistou ninguém. Ela leu o que os Centros publicam: páginas, missões, planos, cursos e relatórios. É uma pesquisa qualitativa, de documentos.
- Escolheu as universidades com nota 9 ou mais em cinco rankings de sustentabilidade, ODS ou da América Latina: 101.
- Procurou nos sites uma estrutura dedicada ao ensino e aprendizagem: achou em 76.
- Catalogou 337 itens desses Centros numa régua de 6 eixos e 27 indicadores, montada a partir da literatura (próxima tela).
Os rankings serviram só para escolher universidades de referência; a tese não analisa as notas.
toque numa etapa do funil
Seis eixos para medir se um Centro espalha sustentabilidade
A partir da literatura, a autora montou uma régua com 6 eixos e 27 indicadores: do compromisso escrito na missão até a formação de professores em sustentabilidade. Toque num eixo para ver o que ele procura.
A régua foi pensada para crescer com os dados. Ao ler os Centros, apareceram 8 práticas que ela não previa, como laboratórios vivos, ePortfólios e rubricas de avaliação. Com elas, a régua passou a ter 35 indicadores.
Este Centro fala de sustentabilidade?
Os trechos ao lado vêm de missões, estratégias e páginas de Centros reais, citados na tese (traduzidos pela autora e encurtados por nós). Para cada um, diga se ele assume um compromisso com a sustentabilidade ou só com a qualidade do ensino.
Atenção às palavras que parecem, mas não são: “transformador”, “inovação” e “reflexão” aparecem muito nos Centros.
Poucos Centros dizem trabalhar com sustentabilidade
Cada quadradinho é um dos 76 Centros. Escolha uma pergunta e veja quantos responderam “sim” no que publicam.
Fonte: Figuras 11 e 14 da tese.
A sustentabilidade mora no andar de cima
Nas universidades, a sustentabilidade aparece na estratégia da instituição. Mas não desce para o Centro, que é quem trabalha direto com os professores. A autora vê aí uma desconexão: o compromisso existe no papel da universidade e quase some onde a formação acontece.
As missões dos Centros falam de qualidade do ensino, experiência dos alunos, tecnologia e formação docente. São objetivos legítimos, mas nenhuma assume um compromisso explícito com a sustentabilidade, a EDS ou os ODS.
A imagem de dois andares é uma metáfora nossa. Escolha um indicador do Eixo 1 para ver o que a autora achou em cada nível.
Fazem muita coisa boa, mas raramente ligam à sustentabilidade
Nos outros cinco eixos, a autora achou práticas com potencial transformador. O problema é o elo com a EDS: os Centros descrevem os métodos, mas quase nunca dizem que servem à sustentabilidade. Vire cada cartão.
O próximo degrau: Centros de aprendizagem transformadora
A tese termina com um caminho em três degraus. Primeiro, a universidade assume a EDS. Depois, os Centros a levam para a sala de aula. No alto, os Centros de Ensino e Aprendizagem Transformadora (CEAT) juntam a EDS à reflexão crítica e mudam alunos, professores e a própria instituição.
No meio do caminho há outro ator: os Centros de Sustentabilidade, que crescem nas universidades. Eles cuidam do campus verde, de energia e de resíduos, não da formação dos professores. Sem conversa entre os dois tipos de Centro, a autora vê um limite para a escalagem.
Pôr a sustentabilidade onde o professor aprende a ensinar
Para a autora, os Centros têm grande potencial para escalar a EDS, mas só se mudarem de papel: de promotores da qualidade do ensino para catalisadores de mudança de visão de mundo.
Para os Centros
- Escrever a EDS no plano estratégico e em políticas próprias, não só nas da universidade.
- Formação de professores contínua, com reflexão crítica sobre as próprias práticas.
- Ligar o e-learning e as tecnologias à EDS, para alcançar mais gente.
Para a gestão da universidade
- Uma governança que una a estratégia da instituição ao trabalho dos Centros.
- Aproximar os Centros de Sustentabilidade dos Centros de Ensino e Aprendizagem.
- Medir o impacto das iniciativas de EDS nas comunidades.
Para professores
- Espaços para rever as próprias práticas e pressupostos, não só receber conteúdo.
- Levar questões ecológicas, sociais, culturais e econômicas para todas as disciplinas.
Para quem avalia universidades
- A régua de 6 eixos e 35 indicadores pode servir de checklist para um Centro.
- Uma boa posição em ranking de sustentabilidade não garante que a EDS chegue à formação dos professores.
O que esta pesquisa não diz
- Só o que está publicado. Os documentos dos Centros são, às vezes, desatualizados e fragmentados. O que não está no site pode existir na prática; a autora sugere entrevistar gestores, professores e alunos. · segundo a autora
- Uma elite acadêmica. Só entraram universidades no topo dos rankings; universidades com outro perfil podem ser diferentes. · segundo a autora
- Achados provisórios. O estudo é exploratório e descritivo, sobre um fenômeno ainda em fase inicial. · segundo a autora
- Centros de Sustentabilidade, só de passagem. Eles merecem um estudo próprio, comparado aos de Ensino e Aprendizagem. · segundo a autora
Créditos
SOUTELLO, Luciane de Paula. A importância dos Centros de Ensino e Aprendizagem na escalagem da Educação para o Desenvolvimento Sustentável no ensino superior. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2024. Orientadora: Profa. Dra. Janette Brunstein.
Pesquisa qualitativa com análise documental (análise de template) dos sites e documentos de Centros de Ensino e Aprendizagem. Apoio do MackPesquisa (Fundo Mackenzie de Pesquisa). Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; os trechos de cada Centro e as discussões completas estão no texto original.