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Tese de doutorado · PPGA Mackenzie · 2024

Virar empresa não é o único caminho para um clube de futebol ser bem gerido

Desde 2021, a Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) permite que clubes brasileiros virem empresa. A tese ouviu dirigentes e conselheiros de 20 clubes, quase toda a Série A, e comparou como são governados os clubes-empresa e os que seguem como associação. Explicada em 12 telas.

Autor: Paulo Henrique Zanon Yagui Orientador: Prof. Dr. Wilson Toshiro Nakamura Coorientador: Prof. Dr. Richard Tacon Programa: Pós-Graduação em Administração de Empresas · Universidade Presbiteriana Mackenzie
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02 O ponto de partida · o formato dos clubes

Nas grandes ligas da Europa quase todo clube é empresa; no Brasil, quase nenhum era

Um clube associativo é uma associação sem fins lucrativos: pertence aos sócios, que elegem conselheiros e presidente. Um clube-empresa tem donos, que podem vender ações a investidores. Compare, em cada 100 clubes (ou nos 20 da Série A):

clube-empresaassociação

Seções 2.3, 2.5 e 4.2 da tese, com dados da Ernst & Young (2020) para as cinco maiores ligas europeias (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França) e para as Séries A e B do Brasil, em dezembro de 2020. Os 8% de clubes-empresa no Brasil são conta nossa (100% − 92% associativos). Série A: contagem da própria tese.

03 A mudança · Lei 14.193/2021

A Lei da SAF cria uma empresa ao lado do clube antigo

Em agosto de 2021 surgiu a Sociedade Anônima do Futebol. O futebol passa para uma empresa nova, que pode receber investidores; o clube original continua existindo, com os sócios e as dívidas antigas. Toque em cada regra:

Imposto sobre a receita, segundo uma das fontes da tese:

Seções 2.4 e 2.6 da tese, que resume a lei com o consultor do Senado José Carlos Silveira Barbosa Júnior (Oliveira, 2022). Alíquotas de Julião (2022), citadas pela tese; a de "empresa comum" é a carga aproximada sobre a receita dita pela fonte. A pilha de dez fatias é ilustração nossa do mínimo de 10% que dá ao clube as ações de classe A.

04 O método · entrevistas em profundidade

Vinte clubes da elite abriram a porta para a pesquisa

O autor procurou todos os 20 clubes da Série A de 2023; só dois não deram entrevista. Entre novembro de 2022 e fevereiro de 2023, conversou pelo Teams com uma pessoa de cada clube, de 20 clubes diferentes: dirigentes da alta gestão ou conselheiros experientes. Veja o grupo por recorte:

20entrevistas, gravadas e transcritas, com consentimento
4rodadas de leitura de cada entrevista para codificar as falas
E1 a E20nomes de pessoas e clubes ficam em sigilo

Seções 3 e 4.1. O agrupamento dos cargos em "conselhos" e "gestão" e as somas são contas nossas a partir da lista da tese. Os cargos não estão ligados aos códigos: não dá para saber quem é quem. As falas valem para o momento da coleta; o autor avisa que alguns clubes mudaram de formato depois.

05 A análise · 7 categorias

As falas viraram sete grandes assuntos

O autor marcou à mão os trechos de cada entrevista com códigos (nomes curtos, muitas vezes com as palavras de quem falou) e juntou os códigos em categorias. Quatro eram esperadas; três surgiram das conversas. Na grade, cada coluna é uma pessoa e o cubo alto marca quem falou do assunto. Escolha:

pessoa de clube-empresapessoa de associação

Tabelas 3 e 4 e seção 4.2. O texto fala em 47 códigos; na Tabela 4 contamos 50 códigos e 18 subcódigos (os subcódigos aparecem no painel). Quem tocou num assunto não necessariamente falou do próprio clube: a menção não é nota.

06 Categorias 2 e 3 · prós e contras da SAF

Os prós mais citados são os problemas de gestão e de política das associações

Quando falaram das vantagens de virar SAF, os entrevistados lembraram primeiro dos problemas das associações: brigas internas, ineficiência, amadorismo. Os contras giram em torno de uma lei nova e de riscos ainda pouco conhecidos. Cada barra conta as pessoas que citaram o assunto. Toque numa barra:

de clube-empresade associação

Tabela 4 e seção 4.2 (categorias C2 e C3). Separação por tipo de clube é contagem nossa. Nomes dos códigos encurtados por nós. Os contras foram citados por poucas pessoas: são preocupações, não um balanço.

07 Categorias 1 e 4 · tornar-se (ou não) SAF

Nas associações, virar SAF ia do “nunca discutimos” ao “devemos virar em 30 dias”

Cada degrau reúne quem estava naquele ponto do caminho no momento da entrevista. Nas associações, a decisão passa pelo conselho deliberativo e, às vezes, por uma assembleia de sócios. Toque num degrau:

92%dos sócios votaram a favor numa assembleia (E5)
95%dos associados autorizaram a mudança do estatuto (E6)
6 de 20já eram clubes-empresa na época

Tabela 4 e seção 4.2 (categorias C1 e C4). Uma pessoa pode ter mais de um código; cada uma está no degrau mais adiantado que citou (agrupamento nosso). E18 disse que não transformaria o clube em SAF; E20, que o clube "necessariamente tem que se tornar uma SAF".

08 Categoria 5 · governança nas associações

Na associação, o placar do fim de semana e a política chegam à sala da diretoria

Metade dos entrevistados disse que o resultado em campo pesa na gestão das associações: quando o time perde, conselheiros e torcida pressionam, e a relação com a diretoria fica tensa. Veja como a pressão muda:

10 de 20citaram a influência do campo na gestão das associações
7descreveram influência política nas associações
3 de 14associações com executivos sem salário (voluntários)
quem escolhe ou acompanha quempressão

Seção 4.2, categoria C5 (Tabela 4). O organograma é ilustração nossa do arranjo que os entrevistados descrevem; cada clube tem estatuto próprio. Das 14 associações, 10 têm executivos remunerados, 3 têm executivos voluntários e 1 não tocou no assunto (contagem nossa).

09 Os clubes-empresa · dois grupos

Entre os seis clubes-empresa, três já eram organizados e três começaram quase do zero

A tese viu dois grupos. Um já tinha práticas melhores que as de muitas associações antes da lei. O outro nasceu de clubes em situação financeira muito difícil, com estruturas precárias, e estava construindo controles, processos e regras de governança. Toque num clube:

Seção 5 (conclusões) e falas da seção 4.2. A altura dos blocos é ilustração nossa dos dois grupos, não uma nota. Segundo a tese, só o clube 16 tinha, na época, governança no nível de empresas de outros setores. Detalhes que poderiam identificar os clubes foram omitidos.

10 A descoberta

As associações vão do precário à excelência; os clubes-empresa ficam mais parecidos entre si

A tese partiu de um pressuposto: o formato associativo não serve mais ao futebol de hoje. Palpite: onde ficam as associações numa régua de práticas de gestão e governança?

Seção 5. A tese não dá notas aos clubes: as posições na régua são ilustração nossa do que as conclusões descrevem (dois grupos de clubes-empresa; associações de "situações muito precárias" a "patamares de excelência"). Para os clubes com práticas ruins, diz o autor, o pressuposto se confirma.

11 Categoria 7 · impactos no futebol brasileiro

Para os entrevistados, a SAF socorre clubes em crise e protege projetos das trocas de presidente

Quase metade viu a SAF como saída para clubes endividados. Sete falaram de outro efeito: com um dono, o projeto do clube não recomeça do zero a cada eleição. Toque numa barra:

7clubes-empresa na Série A até fevereiro de 2023
9até dezembro de 2023, de 20
92%da 1ª divisão das grandes ligas europeias (2020)
de clube-empresade associação

Tabela 4 e seções 4.2 (categoria C7) e 2.3. Separação por tipo de clube é contagem nossa. São expectativas dos entrevistados na época, não efeitos medidos.

12 Para levar

O formato jurídico importa menos do que a governança que o clube pratica

Para o autor, há associações tão bem geridas quanto clubes-empresa, mas o modelo associativo carrega riscos próprios: interferência política, troca de projeto a cada eleição e conselheiros pouco preparados.

Para associações

  • Profissionalizar a gestão, com executivos remunerados e cobrados por metas.
  • Rever o estatuto: papel do conselho deliberativo, prazos de prestação de contas e afastamento rápido em caso de irregularidade.
  • Quem ficar como associação precisa se reestruturar já, diz o autor, para seguir competitivo.

Para SAFs e investidores

  • Montar controles, sistemas de gestão e regras de compliance desde o início.
  • Cuidar da relação com o clube original, que mantém direitos sobre nome, cores e símbolos.
  • Virar empresa não garante boa gestão: a transformação pode só iniciar a profissionalização.

Para sócios, federações e torcida

  • Cobrar transparência: balanços, relatórios e acesso dos conselheiros aos contratos.
  • Um entrevistado lembra que a mudança vai além dos clubes: arbitragem, tribunais e federações também.
  • Conselheiros preparados fazem diferença em qualquer formato. (leitura nossa)

O que esta pesquisa não diz

  • Regras para todo o futebol. Quase todos os clubes eram da Série A; os achados não valem para as Séries B, C e D. · segundo o autor
  • Uma leitura neutra. Na pesquisa qualitativa, a interpretação é do pesquisador e pode carregar pré-conceitos; temas delicados são difíceis de abordar. · segundo o autor
  • A visão do clube inteiro. Cada clube foi ouvido por uma pessoa só, de cargos diferentes (diretores, conselheiros fiscais, conselheiros do deliberativo). · observação nossa
  • Finanças ou desempenho medidos. A tese não compara balanços nem resultados em campo; as falas são de 2022 e 2023, logo após a lei. · observação nossa
  • Uma nota por clube. As contagens dizem quem citou um assunto, não quão bem cada clube é governado. · observação nossa

Créditos

Como citar
YAGUI, Paulo Henrique Zanon. Adoção do modelo de clubes-empresas no Brasil e suas consequências do ponto de vista de governança e gestão. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) · Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2024. Orientador: Prof. Dr. Wilson Toshiro Nakamura. Coorientador: Prof. Dr. Richard Tacon.

Tese aprovada em 06/02/2024, com estágio doutoral de um ano na Birkbeck, University of London. Apoio: isenção integral de mensalidades e taxas do Instituto Presbiteriano Mackenzie. Entrevistas aprovadas por comitê de ética e feitas com consentimento; pessoas e clubes aparecem só pelos códigos da tese (E1 a E20). Versão simplificada para o público em geral.