Contrato inteligente melhora o transporte de cargas?
Contratos que se cumprem sozinhos, em código, prometem menos papel e mais confiança. A tese ouviu 10 gestores e depois 126 transportadoras rodoviárias para ver se o uso desses contratos muda a ligação entre fazer parte de um ecossistema logístico, os custos de transação e o desempenho. Explicada em 12 telas.
Quatro ideias e uma pergunta
O transporte rodoviário leva cerca de 65% das cargas do Brasil, e o país ficou em 51º lugar entre 139 no índice de desempenho logístico do Banco Mundial de 2023. A tese pergunta se o contrato inteligente muda a ligação entre o ecossistema logístico, os custos de transação e o desempenho. Toque num bloco ou numa seta:
Modelo da Figura 1 e hipóteses H1 a H5 (seção 2.5.1). Dados do setor citados na introdução (Confederação Nacional do Transporte e Logistics Performance Index de 2023).
Um contrato que se cumpre sozinho
Um contrato inteligente é um programa: as cláusulas viram regras do tipo “se acontecer isto, faça aquilo”. Quando um evento chega, o contrato se executa e registra tudo num blockchain, um registro compartilhado que ninguém altera sozinho. Escolha o que aconteceu com uma entrega:
Com papel
Com contrato inteligente
Ideia de contrato inteligente das seções 2.2 a 2.2.2 (programa que se executa quando um evento é acionado, sem intermediário, registrado em blockchain). A fala sobre negociar é do gestor P1 (seção 4.2.3.2). As regras e a entrega são exemplos nossos.
Primeiro dez conversas, depois 126 questionários
A pesquisa é mista. Uma revisão da literatura deu a base das perguntas; dez gestores responderam perguntas abertas, que serviram para ajustar o questionário; e transportadoras de todo o país responderam esse questionário, com notas de 1 a 5. Toque em cada etapa:
Para os gestores, custo de transação é o gasto que pega de surpresa
Dez gestores de transportadoras (diretores, gerentes e coordenadores, todos homens) responderam por escrito, entre fevereiro e abril de 2024. Nem todos usavam contrato inteligente, e alguns deixaram perguntas em branco. Escolha o assunto e toque numa pessoa:
Falas literais da seção 4.2.3 (com […] nos cortes), identificadas só pelo código da tese. Cargos dos Quadros 10 e 11. A tese não liga cada gestor a uma das empresas do Quadros 12 e 13, e nós também não.
Das 37 perguntas dos três blocos, 16 ficaram no modelo
Cada ideia virou um bloco de frases, com notas de 1 (discordo) a 5 (concordo). Na análise, ficaram só as perguntas que mediam bem o seu bloco. Troque a vista e toque numa coluna para ler as perguntas:
Altura = número de perguntas. Questionário do Apêndice C; perguntas que ficaram e cargas fatoriais do Quadro 15 e da Figura 7. O contrato inteligente entrou como moderador; a tese não informa quantas das 13 perguntas dele ficaram.
126 transportadoras, quase nove em cada dez do Sul e do Sudeste
O questionário foi para 1.512 empresas de transporte rodoviário de cargas de média e longa distância, entre junho e outubro de 2024. Voltaram 134 respostas, e 126 estavam completas. Quem respondeu foi, em geral, um gerente ou diretor de uma empresa grande e madura. Troque o recorte:
Gráficos 15 a 30 (seção 4.3.1). Retorno de 8,86% dos e-mails, segundo a tese. Nenhuma resposta veio do Rio Grande do Norte, de Sergipe, da Paraíba, do Maranhão, do Acre, de Roraima, do Amapá e do Distrito Federal.
Um ponto por resposta; a ordem dos pontos é só para leitura.
O contrato inteligente aparece sobretudo na gestão dos transportes
As empresas marcaram em que atividades usam o contrato inteligente e deram nota de 1 a 5 a oito motivos para usá-lo. Antes de ver as notas, um palpite: qual motivo recebeu a nota mais baixa?
Todas as 126 empresas disseram usar contrato inteligente
O questionário tinha a opção “não usa”. Na conversa com os dez gestores, três disseram que não trabalham com contrato inteligente. Antes de ver, um palpite: das 126 empresas do questionário, quantas marcaram “não usa”?
Leitura nossa: a pergunta dizia “Smart Contract (Tecnologias Digitais)”, e a tese diz que o Ethereum, plataforma marcada por 113 empresas, foi criado em 2015. Em 2024, ninguém poderia usá-lo havia mais de 10 anos, mas 21 empresas marcaram essa faixa. É possível que parte dos gestores tenha entendido a pergunta como uso de tecnologia digital em geral. A tese não discute esse ponto.
Os 10 gestores da conversa
As 126 empresas do questionário
Gráficos 29 e 30 e Apêndice C (a opção “não usa” estava nas perguntas sobre o contrato inteligente). Os três gestores que disseram não usar são P4, P6 e P8 (seção 4.2.3.4). Ponto vazado em vermelho = disse não usar.
Ligar o contrato inteligente não mudou as ligações
A hipótese principal era de moderação: quanto mais a empresa usa o contrato inteligente, mais fortes ficariam as ligações entre ecossistema, custos e desempenho. Ligue e desligue o contrato e compare a ilustração da hipótese com o que os dados mostraram:
Figura 4 (modelo inicial, com o contrato inteligente como moderador). Um p acima de 0,05 quer dizer que o efeito não se distingue do acaso. Como as três moderações não se confirmaram (H4a, H4b e H4c), o autor tirou o contrato do modelo (tela 11).
As setas engrossariam com o contrato
As setas ficam iguais
Na ilustração, a espessura que muda é inventada. No painel dos dados, as setas têm a espessura dos coeficientes do modelo inicial e não mudam, porque nenhuma moderação foi significativa. Nesse modelo inicial, a seta direta do ecossistema ao desempenho também ficou sem efeito claro (0,107, p = 0,604).
Sem o contrato no modelo, o ecossistema é o que pesa
Quem diz estar mais integrado ao ecossistema logístico também diz dar mais atenção aos custos de transação e relata desempenho melhor. A atenção aos custos não se liga ao desempenho de forma clara, então ela não faz a ponte entre os dois. Toque numa seta:
Coeficientes padronizados (β) e p da Figura 9 e da Tabela 7; R² da Tabela 9. Espessura ∝ β; seta tracejada = sem efeito claro (p > 0,05). R² = quanto das diferenças entre as empresas o modelo explica.
A integração entre parceiros pesou mais do que a ferramenta
Para o autor, o ecossistema logístico tem papel central no desempenho das transportadoras, e o contrato inteligente, que não mudou as ligações nesta amostra, precisa ser estudado em outros contextos, como outros modos de transporte.
Para as transportadoras
- Estar integrado ao ecossistema (parceiros, clientes, logística 4.0) foi o que andou junto com o desempenho; o uso do contrato inteligente não mudou essa ligação.
- Oito dos dez gestores da conversa disseram que lidar com tecnologia digital exige treinar pessoas para analisar dados e decidir.
Para quem pensa em contrato inteligente
- Os gestores citam ganhos de rastreabilidade, confiança e menos erros, e também riscos: mudanças de regras, vazamento de dados e complexidade técnica.
- As regras legais mudam de uma região para outra, lembram alguns gestores, e isso pesa em quem opera em vários países.
Para a pesquisa
- O autor sugere pesquisas por região do país, por tipo de serviço e em outros modos de transporte (aéreo, ferroviário e aquaviário).
- Também sugere procurar outros caminhos entre o ecossistema e o desempenho, como a tecnologia de informação e a qualidade da gestão.
O que esta pesquisa não diz
- Amostra por acessibilidade. Uma única coleta, retorno de 8,86% e oito estados sem resposta; os resultados podem não valer para todo o país. · segundo o autor
- Tudo é opinião de quem respondeu. Desempenho e custos foram notas de 1 a 5 dadas pelo gestor, num momento só, e não números da empresa. · observação nossa
- “Custo de transação” é atenção aos custos. As perguntas que ficaram falam de analisar, compartilhar e acompanhar esses custos, não do quanto a empresa gasta. · observação nossa, Apêndice C
- Sem empresas que não usam. Como todas disseram usar contrato inteligente, não há grupo de comparação entre quem usa e quem não usa. · observação nossa
- Ecossistema e custos andam muito juntos. A medida de sobreposição (HTMT 0,829) ficou perto do limite de 0,85 que a própria tese adota. · observação nossa, Tabela 12
Créditos
BILLIG, Osvaldo Alencar de Oliveira. O impacto do contrato inteligente (smart contract) na relação entre o ecossistema logístico e o desempenho logístico no contexto dos custos de transação. Tese (Doutorado em Administração de Empresas), Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientador: Prof. Dr. Gilberto Perez.
Tese aprovada em 6 de fevereiro de 2025, feita no doutorado interinstitucional (DINTER) do Mackenzie com o Centro Universitário Dinâmica das Cataratas. Dados analisados no SmartPLS. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral.