O que dá valor a uma universidade pública?
Sobram vagas no ensino superior brasileiro, inclusive nas universidades públicas. Para entender o que faz um curso valer a pena, a tese reuniu 104 artigos, ouviu 10 gestores de uma universidade estadual do Paraná e perguntou a 513 alunos. Explicada em 12 telas.
Altura = nota média dos 513 alunos (de 1 a 5) nas perguntas de cada fator, conta nossa com a Tabela 3. Azul: recursos estratégicos. Vermelho: relacionamentos. A caixa tracejada é o valor em si, que a tese propõe medir num próximo estudo.
No Paraná, cursos com muita vaga sobrando podem perder a autorização
Um quarto das vagas de graduação do país não é preenchido. Em 2021, a Lei Geral das Universidades do Paraná passou a ligar o dinheiro das universidades estaduais ao número de alunos, entre outros critérios, e o curso que ocupar menos da metade das vagas por seis anos pode perder a autorização.
Dados citados pela tese (introdução e Artigo 3). A regra é a da Lei Geral das Universidades (Paraná, 2021); o curso do simulador é inventado.
Quando o curso é gratuito, o valor se mede pela qualidade
Na estratégia, valor é o benefício que o cliente percebe. Numa universidade pública não há mensalidade para comparar, então a tese olha o que o aluno recebe e o que ele constrói junto com a instituição.
Conceitos de Bowman e Ambrosini (valor de uso e de troca), Besanko e colegas (qualidade no lugar do preço) e Dollinger, Lodge e Coates (cocriação no ensino superior), como a tese os apresenta.
A tese olhou o valor por três lados: a literatura, os gestores e os alunos
São três artigos em sequência. O que um encontra vira ponto de partida do seguinte: os fatores da literatura guiaram as entrevistas, e as falas dos gestores viraram as perguntas feitas aos alunos.
A literatura reúne 38 fatores de valor em seis grupos
O autor buscou "criação de valor" e "universidade" na Web of Science e leu 104 artigos. Os fatores caíram em duas famílias: a criação de valor, que a universidade faz com seus recursos, e a cocriação, que ela faz junto com empresas, alunos e outras universidades.
Funil da Figura 1 do Artigo 1 (busca de 1945 a abril de 2023). Os 104 artigos saíram em 81 revistas; a que mais publicou (Sustainability) teve 4. Cada cubo da cena é um fator do Quadro 2 (contagem nossa: 38, como no resumo e na conclusão da tese).
Os gestores veem avanços e listam o que ainda falta
Em julho e agosto de 2024, o autor entrevistou pelo Teams dez gestores da universidade: diretores de campus, a direção de inovação e pró-reitores. Escolha um assunto e leia o que disseram.
Falas dos Quadros 1 e 3 do Artigo 2, pelo código da tese (E1 a E10). A separação entre "avanço" e "o que falta" é nossa; várias falas trazem as duas coisas.
Cada pergunta feita aos alunos nasceu de uma fala dos gestores
O questionário tem 37 frases para o aluno concordar ou discordar, de 1 a 5. No apêndice da tese, cada frase vem com a fala de gestor que a inspirou. Responda a cinco delas pensando na sua faculdade e compare com os 513 alunos.
Na escala da tese, 3 quer dizer "não sei opinar", e não "mais ou menos". Médias e desvios-padrão da Tabela 3; falas do Apêndice B, sem código, porque os códigos do apêndice não batem com os do Artigo 2.
Os alunos dão as melhores notas aos professores e as piores aos laboratórios
Responderam 513 alunos, acima do mínimo de 374 do cálculo de amostra; 43% são de Ciências Sociais Aplicadas. As frases sobre professores passam de 4. Equipamento de laboratório, divulgação do empreendedorismo e apoio psicológico ficam perto de 3.
Barra de 1 a 5; a linha fina marca o 3, "não sei opinar". Leitura nossa: média perto de 3 pode juntar quem discorda e quem não conhece o assunto, o que combina com a queixa dos gestores sobre a divulgação.
Na escolha da universidade, pesou mais a qualidade do ensino
Cada fator do questionário começa com a mesma ideia: "isto pesou na minha decisão de estudar aqui". Antes de ver, aposte: qual pesou mais?
Altura = média da primeira frase de cada fator (Tabela 3), dentro de uma caixa que vai até 5. A coluna só sobe depois da aposta.
As respostas formaram seis fatores em dois blocos
Uma análise fatorial conferiu se as frases de cada fator andam juntas: 27 das 37 ficaram e 10 saíram por medir pouco o seu fator. Os seis fatores formam dois blocos que também andam juntos (correlação de 0,698).
Cargas de 2ª ordem da Figura 2, cargas das perguntas da Tabela 5 e variância média extraída da Tabela 4. Ponto cheio: pergunta que ficou; vazado: pergunta que saiu (contagem nossa na Tabela 5).
Ensino e convivência com os professores andaram juntos
O questionário separa o ensino (de um lado) da interação e qualidade de vida (do outro bloco). Mas, nas respostas, qual par de fatores anda mais junto? Aposte.
Altura = correlação entre os fatores (Tabela 6, de 0,338 a 0,672). Toque numa coluna.
O que a pesquisa sugere para quem cuida da universidade
Gestores da universidade
Levar as melhorias de sala de aula, laboratórios, convivência e conectividade ao planejamento (o PDI) e ampliar a capacitação dos professores para métodos mais ativos.
Comunicação
Gestores e alunos apontam a divulgação como ponto fraco: editais difíceis, site pouco amigável, iniciativas de inovação que não chegam ao aluno. Um portal único é uma das ideias citadas.
Alunos
Estágios, projetos com parceiros e intercâmbio estão entre as frases mais bem avaliadas como vantagem no mercado de trabalho (perto de 4), mesmo sem terem pesado na escolha.
Pesquisadores
O autor propõe aplicar o questionário em outras universidades, públicas e privadas, medir o valor em si e testar se os dois blocos o explicam.
O que esta pesquisa não diz
- Quanto cada fator aumenta o valor. O questionário mediu como os alunos avaliam os fatores e como as frases se agrupam; o valor em si não entrou no modelo. O próprio autor deixa esse teste para um próximo estudo. · segundo o autor e observação nossa
- Uma universidade só. É um estudo de caso; para virar instrumento de avaliação, a amostra precisa crescer e o questionário, ser aplicado em outros lugares. · segundo o autor
- Percepção, não inspeção. As notas dizem o que os alunos acham da estrutura e do ensino, não o estado medido de salas e laboratórios. · observação nossa
- Um fator no limite. Infraestrutura ficou com variância média extraída de 0,444, abaixo do 0,5 de referência; o autor a manteve por estar perto e pesar no bloco. · segundo o autor
Créditos
FABRIZ, Sergio Moacir. Fatores determinantes do valor no ensino superior: um estudo de caso em uma universidade pública do estado do Paraná. Tese (Doutorado em Administração de Empresas), Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientadora: Profa. Dra. Dimária Silva e Meirelles.
Tese em formato de três artigos; o primeiro foi aprovado no Enangrad. Análises no SPSS e no SmartPLS 4. A página não nomeia a universidade, como a própria tese. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as tabelas completas estão no texto original.