Quanto tempo o dinheiro da empresa fica parado?
Entre comprar, estocar, vender e receber, o dinheiro de uma empresa passa semanas preso no dia a dia. É o capital de giro. A tese acompanhou empresas brasileiras da bolsa (B3) de 2015 a 2024 para ver como elas cuidaram desse dinheiro antes e depois da pandemia, e se isso mexeu no lucro. Explicada em 12 telas.
O ciclo do dinheiro: a empresa compra, estoca, vende e recebe. O cubo vermelho é o dinheiro dando a volta. Imagem ilustrativa.
O relógio do capital de giro conta dias
A empresa paga o fornecedor, guarda a mercadoria no estoque, vende a prazo e só depois recebe do cliente. Os dias em que o dinheiro dela fica preso nesse caminho formam o ciclo de conversão de caixa.
Ciclo = dias de estoque + dias para receber − dias para pagar o fornecedor. Mexa nos prazos e veja o ciclo mudar.
Duas estratégias. Segundo a tese, a gestão conservadora mantém mais estoque e mais vendas a receber (mais segurança, menos retorno esperado); a agressiva enxuga esses dias e alonga o prazo com fornecedores (mais retorno esperado, mais risco). As médias são das 92 empresas do artigo 3 (Tabela 3.2), arredondadas.
Uma pergunta, três artigos, dois períodos
Como as empresas brasileiras da B3 cuidaram do capital de giro antes e depois da pandemia? A tese responde em três passos.
Depois de 2020, os pesquisadores olharam mais para o capital de giro
O autor juntou as duas maiores bases de artigos científicos da área (Scopus e Web of Science) e ficou com 168 artigos de acesso aberto sobre capital de giro, publicados de 2015 a 2024.
As publicações por ano saltaram em 2020, ano em que começou a pandemia, e não voltaram ao patamar anterior.
Valores da Figura 1.1 da tese; 2024 conta só até outubro. A soma antes e depois de 2020 é contagem nossa. Funil da busca (Tabela 1.1): 316 registros → 184 depois dos filtros de área, tipo e idioma → 168 sem os 15 repetidos nas duas bases.
Muita gente escreveu uma vez; quase ninguém, várias
É o que prevê a Lei de Lotka: poucos pesquisadores publicam muito e muitos publicam pouco. Com as revistas acontece algo parecido (Lei de Bradford): um núcleo pequeno concentra boa parte dos artigos.
Depois de 2020, o dinheiro ficou mais tempo no estoque
Comparando as médias das 92 empresas, o ciclo de caixa passou de 94 para 103 dias. Quem puxou foi o estoque: 25,7% mais dias parado.
As empresas também passaram a demorar mais para pagar os fornecedores e receberam dos clientes um pouco mais rápido. Para a tese, foi uma gestão mais flexível (conservadora), com mais folga para atravessar a incerteza. Toque num par de blocos.
Médias da Tabela 3.2 (sem tratar valores extremos). Os valores variam muito entre empresas: o desvio-padrão do ciclo passa de 200 dias. No artigo 2, com 107 empresas, o ciclo médio foi de 91 para 98 dias, e a mediana, de 33 para 35 dias (Tabela 2.3).
Caixa forte, empresa grande e vendas crescendo: ciclo mais curto
O artigo 2 mediu o que acompanha um ciclo mais curto ou mais longo. Nos dois períodos, empresas que geram mais caixa na operação, que são maiores e que vendem mais a cada trimestre tiveram ciclos mais curtos.
A tese mediu o giro de duas formas: em dias (o ciclo) e em dinheiro (a necessidade de capital de giro: quanto do ativo fica preso em estoques e vendas a receber, descontado o que os fornecedores financiam).
Ver os coeficientes do modelo completo em tabela
Tabelas 2.4 e 2.5 (efeitos fixos). Caixa operacional e lucro sobre o ativo andam muito juntos; por isso a tese também estimou modelos com um de cada vez. Lucro e ciclo: o efeito negativo só aparece no modelo sem o caixa. O modelo do ciclo explica 19% (antes) e 25% (depois) da variação de cada empresa ao longo do tempo; o da necessidade de capital, só 2% a 3%.
A pandemia mudou a força, não a direção
Os fatores que encurtavam o ciclo antes de 2020 continuaram encurtando depois. O que mudou foi o tamanho do efeito, e o endividamento, que só passou a pesar depois da pandemia.
Escolha um fator e veja quantos dias a menos de ciclo ele acompanha em cada período, partindo do ciclo médio.
Conta nossa. Parte do ciclo médio das 107 empresas (91 e 98 dias, Tabela 2.3) e aplica os coeficientes do modelo completo (Tabela 2.4), mantido o resto igual. Só entram efeitos com significância estatística. Mostra associação, não causa.
Ciclo mais curto, lucro um pouco maior, antes e depois da pandemia
Nas 92 empresas, quem deixou o dinheiro menos dias parado teve maior lucro sobre o ativo (ROA). Vale para os dois períodos; depois de 2020, a relação ficou mais forte.
Para a tese, é um argumento a favor da gestão agressiva do giro. Mas o efeito por dia é pequeno, como o próprio autor ressalta. Encurte o ciclo e veja.
Conta nossa. Parte do ROA médio (4% antes, 5% depois; Tabela 3.2) e aplica o coeficiente do ciclo (−0,0000193** por dia antes; −0,0000291*** depois; Tabelas 3.3 e 3.4). O ROA está em fração na tese: 0,0000193 por dia = 0,00193 ponto percentual. Mostra associação, não causa.
Depois da pandemia, o prazo dado ao cliente passou a pesar três vezes mais
A tese também testou cada pedaço do ciclo. Antes de 2020, 30 dias a mais para receber dos clientes vinham com um ROA 0,38 ponto menor; depois, 1,17 ponto menor.
Os dias de estoque pesaram pouco (e, depois de 2020, só com significância fraca, a 10%). E o prazo para pagar o fornecedor? Ele aparece na próxima tela.
Conta nossa a partir dos coeficientes das Tabelas 3.3 e 3.4 (efeitos aleatórios), convertidos em pontos percentuais de ROA. Cada barra vem de um modelo separado. Estrelas: significância a 10% (*), 5% (**) e 1% (***).
Nem tudo seguiu a receita da gestão agressiva
Faça sua aposta e vire o cartão.
Prazos são decisões do dia a dia, e somam
Gestores financeiros
Acompanhar os prazos de estoque, de recebimento e de pagamento, um a um, ajuda a entender o lucro: o ciclo mais curto veio junto com ROA maior nos dois períodos.
Em tempos de crise
As relações não mudaram de direção com a pandemia; mudaram de intensidade. Depois de 2020, o prazo dado aos clientes passou a pesar mais no lucro.
Empresas endividadas
Depois da pandemia, empresas mais endividadas tiveram ciclos mais curtos, o que a tese lê como cuidado maior com a liquidez num cenário de juros altos.
Pesquisadores
O Brasil quase não aparece na pesquisa mundial sobre o tema e não teve parceria internacional no período; a tese aponta a escassez de estudos sobre empresas brasileiras.
O que esta pesquisa não diz
- Poucas empresas, concentradas em alguns setores: 107 e 92 empresas de capital aberto, quase metade delas da indústria. · segundo o autor
- Recortes de tempo e variáveis escolhidos. Outros períodos, setores e empresas pequenas e médias podem mostrar outra coisa. · segundo o autor
- Só artigos de acesso aberto, em duas bases, no levantamento do artigo 1. · segundo o autor
- Efeito pequeno por dia ("reduzida significância prática", nas palavras do autor) e associação, não prova de causa. · observação nossa
Créditos
IORIO, Fabio Roberto. Gestão do capital de giro de empresas brasileiras listadas na B3: uma análise dos contextos pré e pós pandemia. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientador: Prof. Dr. Wilson Toshiro Nakamura.
Pesquisa com apoio do Instituto Presbiteriano Mackenzie (isenção integral de mensalidades e taxas). Dados da Economática, da Scopus e da Web of Science. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as fórmulas e as tabelas completas estão no texto original.