Dignidade de quem atravessa a fronteira para trabalhar
Em Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú, muita gente mora num país e trabalha em outro. O patrão que paga o almoço e trata como "da família" promove ou fere a dignidade de quem trabalha? A tese ouviu 10 trabalhadores transfronteiriços e mostra que a resposta costuma ser as duas coisas ao mesmo tempo. Explicada em 12 telas.
Ninguém fica num emprego só pelo salário
A tese faz uma pergunta simples: o que leva alguém a continuar numa empresa que paga menos do que outra? Para o autor, a resposta não cabe num contrato. Escolha o que pesaria para você e veja para que lado a balança pende:
A balança e os três tipos de objetivo (econômicos, sociais e complexos) vêm da Figura 01 da tese, baseada em Zelizer (2000) e Swedberg (2005). Os motivos foram tirados do mapa da tese (Figura 03); a separação em econômicos e sociais e o exercício são nossos.
Dez trabalhadores que cruzam a aduana para trabalhar
Para participar, a pessoa precisava morar numa das três cidades, trabalhar em outra delas e estar na atividade havia pelo menos um ano. Um participante indicava o próximo (bola de neve). As entrevistas, abertas, foram de maio a novembro de 2024, presenciais ou online. Escolha um recorte:
Perfis da seção 3.3 da tese; contagens e agrupamento das funções são nossos. Para não identificar ninguém, as figuras não seguem a ordem dos códigos P01 a P10. Esquema fora de escala. O método diz que todos moram entre Brasil e Paraguai, mas um dos perfis mora na Argentina; seguimos os perfis.
Cada conversa no trabalho pode promover ou ferir a dignidade
A tese junta três ideias. Dignidade não é só o valor que todo ser humano tem: também se constrói nas interações, e cada uma é um "encontro" que a promove ou a viola (Jacobson, 2009). Intimidade é a proximidade que se negocia, com confiança, mesmo numa troca econômica (Zelizer, 2000). Interesses movem toda relação, econômicos ou não (Swedberg, 2005). Teste a primeira ideia: este gesto promove ou viola?
Palavras das listas de Jacobson (2009) reproduzidas na seção 2.4.2 da tese: 22 formas de promover e 24 de violar a dignidade. A seleção de nove é nossa.
A pesquisa desenhou um mapa das relações de trabalho
O autor usou a cartografia simbólica de Boaventura de Sousa Santos. Todo mapa distorce a realidade de três jeitos, e conhecer as distorções é o que torna o mapa útil. A tese usa os três como ferramentas para ler as entrevistas. Toque em cada um:
Seções 3.2, 3.4 e 4.1 da tese. Desenhos nossos.
Responda às perguntas que os trabalhadores ouviram
Quatro das 16 perguntas do roteiro. Escolha a resposta mais perto da sua e compare com o que os participantes disseram:
Perguntas do Apêndice 3; falas do capítulo 4, só com o código da tese. As opções de resposta são nossas. Onde a fala marcava o gênero da pessoa, usamos […].
Na escala da sociedade, só aparece a necessidade de dinheiro
O mapa cruza três escalas (a relação com o chefe, as organizações, a sociedade) com três categorias. Cada cubo é um elemento das entrevistas: escuros no centro, claros na periferia. Na escala da sociedade, intimidade e dignidade ficaram vazias. Toque numa pilha:
Redesenho da Figura 03 da tese (mapa em roda), lida em alta resolução; contagens nossas. Onde o texto e a figura listam itens diferentes, seguimos a figura. Na escala pequena dos interesses, a figura traz uma oitava palavra ilegível (talvez "subemprego"), que deixamos de fora.
Um almoço pago pelo patrão também é uma estratégia
Os trabalhadores falaram com carinho de chefes próximos. O autor não nega que os gestos sejam bons, mas lembra Zelizer: não existe intimidade sem interesse por trás. Vire cada cartão para ver o que o gesto também pode fazer.
Gestos e leituras da seção 4.1.1 (e 4.1.3, no sexto cartão). As leituras são do autor; as falas, com o código da tese. Onde o emprego é mais escasso, a tese viu o contrário: com a vantagem de trabalhar fora do país, o empregador de P04 nem precisa de intimidade.
No centro do mapa da dignidade ficaram as violações
No mapa, o centro reúne o que aparece mais e é visto como normal; a periferia, o que fica à margem. Antes de ver: na relação com o chefe (escala grande), o que você espera encontrar no centro?
Elementos da Figura 03 (dignidade, escalas grande e média); falas da seção 4.1.2. Toque numa palavra. A escala pequena da dignidade ficou vazia na tese.
A necessidade de dinheiro vira regra nas empresas da fronteira
Por que aceitar horas a mais e a travessia diária? O autor lê os interesses de baixo para cima. Na base, a necessidade de sustento, vista como natural. No meio, organizações que fazem disso prática. No topo, o que cada pessoa busca além do dinheiro. Toque numa camada:
Seção 4.1.3 e Figura 03 da tese. A figura lista um elemento a mais que o texto na escala grande ("obrigações com a família"); seguimos a figura. O tamanho das camadas é só desenho.
Fazer parte da família pode apagar o contrato
O caso mais forte da tese é o de quem trabalha numa casa de família (P07). Os mesmos fatos podem ser lidos com duas lentes. Troque a lente e toque num fato:
Fatos e falas das seções 4.1.2, 4.1.3 e 4.2; leituras do autor. A casa é desenho nosso.
Respeito simbólico não substitui direitos
A tese chama de dignidade ambígua o que encontrou: estratégias íntimas (valorização simbólica, acordos informais) dão ao trabalhador uma identidade positiva e, ao mesmo tempo, sustentam horas não pagas e trabalho sem registro, que passam a parecer normais. E o trabalhador não é ingênuo: sabe disso e também negocia o que aceita.
Para empregadores (inclusive famílias)
- Salário justo, condições seguras e nenhuma hora a mais sem pagamento.
- Tarefas e horários claros: confiança e carinho não substituem o combinado.
Para gestores
- Diálogo, feedback e oportunidades de crescer fortalecem a dignidade, segundo os relatos.
- Educar líderes e também clientes para o respeito: insultos de clientes apareceram nas falas.
Para a sociedade e o poder público
- O autor aponta falta de fiscalização no trânsito da tríplice fronteira e instituições frágeis.
- Discriminação e salários menores ligados à condição de estrangeiro pedem políticas inclusivas.
O que esta pesquisa não diz
- O lado do empregador. Só os trabalhadores foram ouvidos. · segundo o autor
- Dez pessoas, por indicação. A bola de neve com dez participantes limita o alcance; o autor aposta na profundidade. · segundo o autor
- Quanto cada elemento apareceu. A tese não diz quantas pessoas citaram cada item do mapa; centro e periferia são leitura do pesquisador. · observação nossa
- Uma amostra jovem e variada. Metade tinha até 25 anos, e há quem trabalhe na empresa da própria família, situação bem diferente da de um empregado comum. · observação nossa
- Interpretação, não medida. A tese é qualitativa e reflexiva: mostra mecanismos possíveis, não quantos trabalhadores da fronteira vivem cada situação. · observação nossa
Créditos
MARIO, Fábio Aurelio de. Dignidade de trabalhadores transfronteiriços: implicações a partir das relações de trabalho complexas. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) · Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientadora: Profa. Dra. Maria Luisa Mendes Teixeira.
Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, com termo de consentimento assinado por todos os participantes. Os participantes aparecem só pelos códigos da tese, sem dados que os identifiquem. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral.