Equipes aprendem com a cabeça, o coração e as mãos
Para absorver uma ideia nova, não basta entender: é preciso se importar com ela e pôr a mão na massa. Com 257 profissionais que tomam decisões em equipe, a pesquisa mostra como pensar, sentir e agir sustentam a inteligência coletiva. Explicada em 10 telas.
O conceito clássico olhava só para a cabeça
Capacidade absortiva é a capacidade de perceber o valor de um conhecimento novo, vindo de fora, e de incorporá-lo. Quando o conceito nasceu (Cohen e Levinthal, 1990), ele foi descrito como uma questão de cognição: entender.
A tese volta à educação e à psicologia, para as quais aprender também envolve sentir e agir. Ligue e desligue cada parte e veja o que acontece com uma equipe que recebe uma ferramenta nova.
Cenário ilustrativo, criado para esta página. A tese também tira "aplicar" da definição: usar o conhecimento é o que vem depois de absorvê-lo. Fonte: Capítulo 2, proposições P2.1 e P2.2.
Cada domínio tem seus degraus
Para descrever cada parte, a autora usou classificações clássicas do ensino: a taxonomia de Bloom para pensar e sentir, e a de Harrow para o movimento. Elas organizam a aprendizagem em degraus, do mais simples ao mais complexo.
A altura indica a posição do degrau na escada; o número em cima é a média das respostas à pergunta daquele degrau (1 = discordo totalmente, 5 = concordo totalmente). O questionário tem uma pergunta por degrau. Fonte: Figura 4.5, Tabela 5.2 e Apêndice A.
Da pessoa à equipe
Quando várias pessoas absorvem juntas, as três partes mudam de forma. Para a autora, o resultado é a inteligência coletiva: a equipe passa a saber e decidir mais do que cada um sozinho.
Fonte: Capítulo 3, proposições P3.1 a P3.3, a partir de 52 artigos sobre inteligência coletiva.
Uma régua nova, testada com 257 profissionais
- 1.433artigos coletados
para repensar o conceito; 44 ficaram na análise (Capítulo 2).
- 255artigos coletados
sobre inteligência coletiva; 52 ficaram (Capítulo 3).
- 26escalas analisadas
Nenhuma media a capacidade de absorver em si, com os três domínios. Por isso a autora criou um índice com uma pergunta por degrau, ajustado com especialistas e um grupo focal (Capítulo 4).
- 257respostas
de profissionais que pensaram em decisões complexas e não rotineiras, como lançar um produto ou enfrentar uma crise (Capítulo 5).
Para selecionar os artigos, a autora criou o método MISELI, publicado na Revista de Administração Mackenzie (Apêndice B). O questionário circulou pela rede da pesquisadora e pelo LinkedIn durante 30 dias.
Percentuais sobre os 257 respondentes. Fonte: Tabela 5.1.
As pessoas se avaliam bem; as equipes, nem tanto
Sobre si mesmos, os profissionais deram notas altas nos três domínios, todas acima de 4 numa escala de 1 a 5. Sobre a equipe, nenhum dos seis comportamentos chegou a 4. O mais fraco é a reflexividade: parar para repensar como se trabalha.
Altura proporcional à média (escala de 1 a 5). Passe o mouse ou toque numa barra. É uma leitura nossa que parte da diferença pode vir de as pessoas tenderem a se avaliar melhor do que avaliam o grupo. Fonte: Tabelas 5.2 e 5.3.
Um quinto da inteligência coletiva, e o coração puxa sozinho
Juntos, os três domínios formam o índice de capacidade absortiva, que explica 22,5% das diferenças de inteligência coletiva entre as equipes. Na composição do índice, cabeça e coração pesam quase o mesmo; as mãos, menos:
Mas quando cada domínio entra separado, só uma ponte se sustenta até a inteligência coletiva. Tente atravessar.
Por que a cabeça "cai"? Pensar e sentir andaram muito juntos nas respostas (correlação de 0,807): quem se deu nota alta num tendeu a se dar nota alta no outro. Com os dois na mesma conta, o afetivo ficou com o efeito comum. Isso não quer dizer que pensar não importe; a próxima tela mostra que os três são necessários. Fonte: Figuras 5.1 e 5.3, Tabelas 5.5 e 5.8.
Sem um mínimo dos três, a equipe não chega lá
Uma segunda análise (análise de condições necessárias) pergunta outra coisa: existe um nível abaixo do qual um resultado alto não acontece? Como ter internet para assistir a uma aula on-line: necessário, mas não suficiente.
Escolha a meta de inteligência coletiva e veja o piso de cada domínio.
| É piso? (precisa de um mínimo) | É alavanca? (mais dele, mais resultado) | |
|---|---|---|
| Coração | sim | sim |
| Cabeça | sim | não |
| Mãos | sim | não |
Cada quadradinho é uma das 257 pessoas; em cor, as que estão abaixo do piso daquele domínio para a meta escolhida. Pisos arredondados para duas casas. Fonte: Tabelas 5.6, 5.7 e 5.8 (coeficientes da análise de condições necessárias: afetivo 0,501, cognitivo 0,528, psicomotor 0,316, todos significativos).
O que fazer na segunda-feira
Para a autora, quem quer equipes mais inteligentes deve começar pela capacidade de cada pessoa de absorver conhecimento, nos três domínios. Os resultados sugerem uma ordem: garantir o piso nos três e, acima dele, cuidar do coração, o único que continuou puxando o resultado.
Cabeça
- Reuniões regulares para a equipe resolver problemas reais junto.
- Ambiente que premia curiosidade e experimentação.
- Hackathons e sessões de brainstorming.
Coração
- Sessões de feedback em grupo, para ouvir e valorizar cada contribuição.
- Conversas sobre os valores da empresa e a dinâmica da equipe.
- Parcerias entre equipes e programas de engajamento.
Mãos
- Oficinas em que as pessoas aprendem e aplicam juntas uma técnica, um software ou uma ferramenta.
- Treinamento prático e colaborativo.
- Rodízio de funções.
Para o RH
- O índice da tese pode servir de diagnóstico: mostra em que domínio cada pessoa está mais fraca.
- Com isso, o investimento em desenvolvimento vai para onde há mais necessidade.
A ordem "piso primeiro, coração depois" é uma leitura nossa das Tabelas 5.6 e 5.8, na linha da interpretação da autora. As ações não foram testadas na pesquisa.
O que esta pesquisa não diz
- A capacidade absortiva explica uma parte pequena (22,5%). A autora esperava mais e aponta como possível causa a escala escolhida para medir a inteligência coletiva. · segundo a autora
- Pessoa e equipe em níveis diferentes. A capacidade foi medida na pessoa ("eu consigo") e a inteligência coletiva, na equipe ("nossa equipe"), ainda que sempre pensando em decisões em grupo. · segundo a autora
- Cabeça e coração quase se confundem. A correlação de 0,807 entre os dois torna difícil separar seus efeitos; a autora os manteve separados para seguir a teoria. · segundo a autora
- Contexto genérico. A pesquisa não considerou o tipo de organização, então os resultados não valem automaticamente para todas. · segundo a autora
- Retrato de um momento, com autoavaliação. As pessoas responderam uma vez, sobre si e sobre a equipe; a amostra veio da rede da autora e do LinkedIn, com perfil sênior. Os resultados mostram associações e condições, não causa e efeito. · observação nossa
NARAZAKI, Rosana Yasue. Absorptive capacity configured from the learning domains and its effects on collective intelligence under the context of the decision-making process. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientador: Prof. Dr. Silvio Popadiuk. Coorientador: Prof. Dr. Ricardo Gouveia Rodrigues.
Tese em dupla titulação com o programa de doutorado em Gestão da Universidade da Beira Interior (Covilhã, Portugal), com apoio da CAPES, do Instituto Presbiteriano Mackenzie, do NECE-UBI (FCT) e do Erasmus+. Os dados foram analisados por modelagem de equações estruturais (PLS-PM, no SmartPLS 4, com 5.000 reamostragens) e por análise de condições necessárias (NCA).
Esta versão interativa simplifica o trabalho para o público em geral. A tese está em inglês, com os Capítulos 2 e 3 em português; a fenomenologia, a construção do índice e as discussões completas estão no texto original.