O que ajuda a interpretar uma norma de trânsito
Leis, resoluções, portarias, ordens de serviço: é com elas que os técnicos do DETRAN do Paraná emitem uma habilitação ou registram um veículo. Com 155 técnicos de todo o estado, a tese mede o que se liga a ter mais ou menos dificuldade nessa leitura: aprender, ter contatos, equilibrar o novo e a rotina e o próprio texto da norma. Explicada em 12 telas.
A mesma norma pode virar respostas diferentes
Cada unidade do DETRAN-PR aplica as mesmas regras. Mas uma norma ambígua, que muda toda hora ou cheia de exceções, abre espaço para cada técnico entender de um jeito, e o cidadão recebe respostas diferentes. A tese lista as razões. Toque numa:
Ilustração nossa: o pedido e as respostas são inventados. As razões vêm da introdução da tese (seção 1.1). Na pandemia, o atendimento presencial parou, os processos acumularam e as filas cresceram (G1 Paraná, 2021, citado na tese).
Três capacidades da pessoa e o texto da norma
A tese leva para o técnico três ideias que nasceram para estudar empresas: a capacidade de absorção (reconhecer, assimilar e aplicar conhecimento novo), o capital social (os contatos dentro e fora do órgão) e a ambidestria (explorar o novo sem largar a eficiência da rotina). E pergunta também o quanto o texto da norma atrapalha. Toque num bloco:
Altura = número de perguntas no questionário (Apêndice B). Escalas de Wang e colegas (capacidade de absorção), Ben-Hador e colegas, adaptada por Albano (capital social), e Popadiuk e Nishimura (ambidestria); as do texto da norma e da dificuldade foram criadas pela autora. O questionário também perguntou sobre o ambiente de trabalho (10 itens) e a motivação (15).
155 técnicos de um órgão que a autora conhece por dentro
A autora trabalha no DETRAN-PR. Com autorização do órgão, mandou um questionário para o e-mail institucional dos técnicos de atividades de trânsito das 101 circunscrições regionais (CIRETRANs) do Paraná, depois de testá-lo com dez colegas.
Seções 3.1, 3.2 e 3.3.7. Responderam cerca de 27% do público (conta nossa). O número ficou acima do mínimo que a autora calculou para os testes estatísticos.
Percentuais da Tabela 1; pessoas por grupo = percentual × 155, arredondado (conta nossa).
Responda como um técnico
Seis frases reais do questionário, de 1 a 6. Troque "DETRAN-PR" pelo lugar onde você trabalha. A média dos técnicos aparece depois da sua resposta.
Itens AAS1, AID2, CSFDO1, CSLID3, INO8 e EFIC3 (Apêndice B); médias das Tabelas 2, 3 e 4.
Os técnicos trocam muito com os colegas e dizem ter pouca influência
Nas três capacidades, as médias ficam acima do meio da escala. A exceção está no capital social: os técnicos têm bons amigos e confiam nos colegas, mas quase não se veem ligados a pessoas influentes, dentro ou fora do órgão. Troque a capacidade e toque numa barra:
Médias de 1 a 6: o chão é 1 (discordo totalmente) e a caixa vazada vai até 6 (concordo totalmente). Tabelas 2, 3 e 4. Nas partes do capital social em que a tabela não traz a média do grupo, a média das perguntas é conta nossa.
Termos vagos e falta de treinamento estão no topo do que atrapalha
O questionário perguntou o quanto cada coisa prejudica a interpretação correta de uma norma. Antes de ver, um palpite: o que você acha que mais atrapalha?
A dificuldade declarada por tipo de norma ficou baixa (médias de 2,1 a 2,5): os técnicos se dizem à vontade com leis e portarias, mas apontam o que no texto e no trabalho atrapalha. Tabelas 5 a 8. Cada pergunta tem sua própria escala: compare só dentro da mesma pergunta.
A capacidade de absorção se liga a todas as outras peças
A tese testou dez ligações de uma vez (equações estruturais). A capacidade de absorção se liga às outras capacidades e a menos dificuldade. O texto que atrapalha se liga a mais dificuldade. A ambidestria e os contatos de fora não fazem diferença clara. Toque numa seta:
Coeficientes padronizados (β) do SmartPLS 4, Tabela 13 e Figura 28. Espessura ∝ β; tracejada = não significativa. A medida de chegada é a dificuldade declarada: sinal negativo quer dizer menos dificuldade. R² = quanto das diferenças entre os técnicos o modelo explica.
O texto da norma pesa mais do que qualquer traço do técnico
Com só as capacidades do técnico, o modelo explica cerca de 10% das diferenças de dificuldade. Quando entra o quanto o texto da norma atrapalha (termos vagos, frases mal formuladas, vários significados), a explicação quase triplica. Ligue e desligue o texto:
Altura = tamanho do coeficiente (β), sem o sinal; ↑ = mais dificuldade, ↓ = menos. Sem o texto: Figura 27 (só as ligações significativas). Com o texto: Tabela 13 e Figura 28; cinza = não significativa. O copo vai até 100%.
Quem tem mais laços no órgão relatou um pouco mais de dificuldade
A hipótese era que bons contatos dentro do DETRAN ajudariam a interpretar as normas. Nos dados, a ligação é pequena e vai para o outro lado: mais capital social interno, um pouco mais dificuldade declarada. Mexa nos três fatores que se confirmaram e veja a soma:
β da Tabela 13 vezes o quanto você mexeu (em desvios-padrão), somados: leitura ilustrativa, com as demais coisas iguais. Associação num momento só, não prova de causa.
Nem toda aposta da pesquisa se confirmou
Antes de coletar os dados, a autora apostou que cada capacidade ajudaria. Faça as suas apostas e vire os cartões. No verso, um caso que a autora viveu no DETRAN-PR.
Hipóteses da seção 2 e resultados da Tabela 13. Os casos vêm da discussão, em que a autora comenta cada hipótese com sua experiência no órgão.
Formar quem lê e escrever melhor o que se lê
Para a autora, capacitar os técnicos de forma contínua pode ser uma estratégia eficaz para desenvolver a capacidade de absorção e melhorar o serviço à sociedade. Os dados apontam outro alvo: o próprio texto das normas.
Para o DETRAN e outros órgãos
- Treinamentos regulares e oficinas sobre normas novas, segundo a autora. Hoje não há um programa frequente: de tempos em tempos, os técnicos fazem cursos on-line da escola de governo do Paraná.
- A ausência de treinamentos foi o que mais atrapalhou no ambiente de trabalho (4,30).
Para quem escreve normas
- Termos vagos (4,13) e frases mal formuladas (4,03) lideram o que atrapalha no texto.
- No modelo, o texto confuso foi a maior ligação com a dificuldade. Normas claras e bem definidas, diz a autora, são essenciais para uma interpretação uniforme.
Para os técnicos
- Conversar com os colegas sobre uma norma nova foi a resposta mais alta da capacidade de absorção (5,07).
- A autora sugere grupos de discussão e redes de apoio entre técnicos para uniformizar a leitura; a pesquisa não mediu o efeito desses grupos.
O que esta pesquisa não diz
- Um órgão, um estado. Só técnicos do DETRAN-PR; outros órgãos e regiões podem ser diferentes. · segundo a autora
- Questionário fechado. Respostas prontas não captam as nuances; a autora sugere entrevistas e grupos focais. · segundo a autora
- Dificuldade declarada, não medida. O técnico diz quanta dificuldade sente; a pesquisa não testou se ele interpreta a norma certo. · observação nossa
- Um momento só. Tudo foi perguntado no mesmo questionário: mostra o que anda junto, não o que causa o quê, nem a direção. · observação nossa
- Boa parte fica sem explicação. O modelo explica 29% das diferenças de dificuldade; cerca de 71% dependem de outras coisas. · observação nossa, com o R² da Tabela 9
Créditos
NEVES, Genailda Ramos. Capacidade de absorção, capital social e ambidestria individual sob o contexto de interpretação de normativas de trânsito. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2024. Orientador: Prof. Dr. Silvio Popadiuk.
Tese aprovada em 17 de dezembro de 2024. Pesquisa autorizada pelo DETRAN-PR. A autora agradece a parceria com a União Dinâmica das Cataratas (UDC); o termo de consentimento cita o doutorado interinstitucional (DINTER). Dados analisados no SmartPLS 4. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral.