Nota ESG alta deixa o dinheiro mais barato?
Agências dão notas de 0 a 100 para o que as empresas fazem pelo meio ambiente, pelas pessoas e pela boa gestão (ESG). A promessa é que nota alta traz investidores e crédito mais baratos e empresa mais valorizada. A pesquisa testou isso em 594 empresas do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS), de 2015 a 2022. Explicada em 12 telas.
Uma coluna por país: em azul, a nota ESG média; em vermelho, o custo médio da dívida (Tabelas 2 e 3). Onde a nota é mais baixa, a dívida também é mais barata.
Quatro promessas do ESG postas à prova
Estudos em países ricos costumam achar que nota ESG alta reduz o custo do dinheiro e aumenta o valor da empresa. Nos países emergentes, os resultados são mistos. A tese testou quatro hipóteses. Aposte em cada uma: guardamos suas respostas e mostramos o placar na tela 11.
Três réguas: dois preços do dinheiro e o valor da empresa
Toda empresa paga para usar dinheiro alheio. O custo do capital próprio é o retorno que os acionistas exigem; o custo da dívida, os juros que credores cobram. O Q de Tobin compara o que o mercado paga pela empresa com o valor dos ativos dela. Mexa numa empresa inventada.
ilustração Empresa inventada. Fórmulas do Quadro 2: Ke = juro sem risco + beta × prêmio; Ki = (juro sem risco + risco de crédito) × (1 − imposto); Q = (valor das ações + dívida) ÷ ativo total. Na tese, os três vêm prontos da Bloomberg; as médias são das Tabelas 1 e 2.
594 empresas de cinco países, de 2015 a 2022
Empresas abertas dos BRICS com nota ESG na base Refinitiv, de 2015 (ano da Agenda 2030 da ONU) a 2022. Bancos e seguradoras ficaram de fora, porque usam dívida de outro jeito.
- Notas ESG da Refinitiv, de 0 a 100: uma nota total e uma para cada pilar (ambiental, social e governança).
- Custos e valor da Bloomberg: custo do capital próprio, custo da dívida, custo médio do capital e Q de Tobin.
- Economia de cada país do Banco Mundial: crescimento do PIB e inflação, além da taxa de juros.
Cada ponto = 1 empresa. Contagens da seção 6.1 (somam 594). As tabelas do painel falam em 4.765 observações (empresa em um ano), um pouco acima do máximo de 594 × 8 = 4.752; a tese não explica a diferença (observação nossa).
As empresas chinesas têm as notas ESG mais baixas
Em todos os pilares, a China fica atrás. Brasil, África do Sul e Índia aparecem quase empatados no topo. Escolha um pilar.
Médias da Tabela 3 (diferenças entre países com p < 0,001, teste de Kruskal-Wallis). Embaixo, a correlação entre os pilares (Tabela 6): quem vai bem num pilar tende a ir bem no outro, sobretudo no ambiental e no social.
O dinheiro custa muito diferente em cada país
Antes de ver as barras, dê um palpite: em qual país a dívida das empresas é mais cara?
Médias de 2015 a 2022, Tabelas 1 e 2. As diferenças entre países são estatisticamente significativas em todas as medidas (Kruskal-Wallis, p < 0,001).
Olhando por cima, nota ESG alta parece encarecer a dívida
Juntando todas as empresas, quanto maior a nota ESG, maior o custo da dívida. É o contrário da promessa. Toque nos dois cartões.
Médias por país das Tabelas 2 e 3; círculo proporcional ao número de empresas. A leitura de que a correlação reflete a diferença entre países é nossa, não da tese.
O modelo compara cada empresa com ela mesma ao longo dos anos
A tese usou regressão em painel com efeitos fixos: em vez de comparar uma empresa chinesa com uma brasileira, pergunta se, quando a nota de uma empresa sobe, o custo dela muda. Também desconta a inflação, os juros, o PIB, o tamanho, a dívida e o lucro.
ilustração Números inventados para mostrar a lógica. A tese rodou três modelos (efeitos fixos, efeitos aleatórios e mínimos quadrados agrupados) e o teste de Hausman (p < 0,0001) escolheu o de efeitos fixos.
Nota ESG mais alta, capital próprio um pouco mais caro
No modelo escolhido, cada ponto a mais na nota ESG veio com 0,026 ponto percentual a mais no retorno exigido pelos acionistas. É o contrário da hipótese, e pequeno perto do que juros e inflação fazem.
Coeficientes da Tabela 10 (efeitos fixos: nota ESG 0,0261, inflação 0,2842, juros 0,2126, PIB −0,1134). A conversão em pontos percentuais supõe custo, inflação e juros medidos em % (conta nossa). Tamanho, dívida e lucro não tiveram efeito.
No valor de mercado, a nota ESG não fez diferença
A hipótese esperava Q de Tobin maior com nota ESG maior. Nos três modelos, o efeito da nota ficou perto de zero e sem significância estatística. O valor acompanhou outras coisas: lucro, porte e economia.
Mudança no Q de Tobin para cada mudança indicada, modelo de efeitos fixos (Tabela 12). Multiplicações nossas a partir dos coeficientes. Para comparar: as médias por país vão de 1,41 a 3,72. Toque numa linha para ver o número da tese.
Pilar a pilar, só o social apareceu, e para o lado contrário
A tese testou cada pilar contra cada régua. Das nove combinações, só uma teve efeito. Toque nos blocos.
Modelos de efeitos fixos da Tabela 14. Bloco alto = efeito estatisticamente significativo; bloco baixo listrado = sem efeito. Para o custo da dívida, usamos só este modelo pilar a pilar: a tabela do modelo com a nota total (Tabela 11) repete os números da tabela do capital próprio.
O que muda para quem investe, empresta ou gere
Investidores e credores
Nos BRICS, uma nota ESG alta não garantiu risco menor nem custo menor. Para a autora, os resultados ajudam a entender como as ações ESG afetam o custo de capital em cada país.
Empresas
Para a autora, práticas ESG podem exigir investimentos altos no começo, o que pode elevar o custo no curto prazo. A estratégia de sustentabilidade precisa se adaptar ao mercado de cada país.
Governos e reguladores
As notas variam muito entre países, e a China ficou atrás em todos os pilares. A autora lembra que os reguladores chineses estão ampliando a exigência de divulgação ESG.
Pesquisadores
A tese pede novos estudos sobre custo de capital nos emergentes, com outros métodos e técnicas estatísticas e mais países.
O que esta pesquisa não diz
- Os modelos explicam pouco. A parte do custo e do valor explicada dentro de cada empresa fica entre 1% e 3%. Custo e valor dependem de muito mais. · observação nossa (Tabelas 10, 12 e 14)
- Associação, não causa. Comparar cada empresa com ela mesma não diz se a nota mexe no custo ou o custo mexe na nota. · observação nossa
- Uma régua de ESG só. As notas vêm de uma agência (Refinitiv), e a própria tese lembra que agências diferentes dão notas diferentes à mesma empresa. · segundo a autora e observação nossa
- Seis em cada dez empresas são chinesas. As médias e as correlações dos BRICS pesam muito para a China. A tese não roda os modelos país a país. · observação nossa
Créditos
SILVA, Claudia Vasconcellos. Análise do impacto de desempenho ESG em relação ao valor e custo capital das empresas listadas no mercado de capitais dos BRICS. Tese (Doutorado em Administração de Empresas), Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2025. Orientador: Prof. Dr. Wilson Toshiro Nakamura.
Pesquisa com isenção integral de mensalidades do Instituto Presbiteriano Mackenzie. Dados da Refinitiv, da Bloomberg e do Banco Mundial. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral; as fórmulas e as tabelas completas estão no texto original.