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Tese de doutorado · PPGA Mackenzie · 2026

O investidor tem sotaque?

Confiar demais em si mesmo, segurar a ação que só cai, ir atrás da manada: investidores do mundo todo cometem os mesmos erros. Com dados diários de 64 bolsas, de 2010 a 2024, a tese mostra que a cultura de cada país muda o tamanho desses vieses, e que a pandemia chegou a inverter a direção de alguns. Explicada em 12 telas.

Autor: Wilson Eduardo Ikeda Orientador: Prof. Dr. Denis Forte Coorientação: Ana Paula Matias Gama, Ph.D. (Universidade da Beira Interior) Programa: Pós-Graduação em Administração de Empresas · Universidade Presbiteriana Mackenzie, em dupla titulação com a Universidade da Beira Interior (Portugal)
bolsas com efeito manada bolsas com o contrário (anti-manada)

Das 64 bolsas, quantas mostraram cada comportamento em cada período. Na pandemia, o "anti-manada" quase sumiu. Contagem nossa a partir da Tabela 17 (p < 0,10).

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02 O problema

Três erros que quase todo investidor já cometeu

A teoria clássica supõe um investidor frio, que usa toda a informação disponível. As finanças comportamentais mostram outra coisa: emoções e atalhos mentais levam a erros previsíveis, os vieses. A tese estuda três deles.

Esses erros têm o mesmo tamanho em todo lugar? A tese aposta que não: cada país tem uma cultura nacional, um jeito compartilhado de pensar e sentir que passa de geração em geração e que pode ampliar ou frear cada viés.

Os investidores do mundo todo têm os mesmos vieses, ou a cultura de cada país os molda e amplia?

Pergunta de pesquisa da tese, seção 1.1.

Você reconhece a cena? Toque para ver o nome do viés e como a tese o mediu:

03 Como medir uma cultura

Seis notas de 0 a 100 para descrever a cultura de um país

A tese usa as dimensões culturais de Hofstede, o modelo mais usado para comparar países. Cada país recebe uma nota de 0 a 100 em seis dimensões. Escolha uma e veja onde ficam os 64 países da pesquisa:

Brasilpaís destacadooutros países

Cada ponto é um país; toque num ponto para ver o nome. Países sem nota na dimensão ficam de fora (Jamaica em longo prazo e indulgência; Israel, Sri Lanka, Tunísia e Jamaica em indulgência). Fonte: Hofstede Insights (2024), Apêndice I.

04 Capítulo 3 · 60 artigos

Um campo novo, que dobrou de tamanho desde 2017

Antes de ir aos dados, o autor vasculhou as bases Web of Science e Scopus atrás de tudo o que se publicou sobre cultura nacional e comportamento do investidor em revistas de finanças bem avaliadas. Ficaram 60 artigos, de 2009 a 2024. A produção mais que dobrou a partir de 2017; o estudo mais influente é o de Schmeling (2009), e os países mais estudados são os Estados Unidos e a China.

Área dos círculos proporcional ao número de documentos. Filtros: só inglês, só revistas classificadas pela ABS (nível 2 ou mais), sem duplicatas; depois, leitura dos resumos. Busca em maio de 2024. Fonte: seção 3.3.

Do que falam esses artigos? Uma análise do vocabulário dos resumos separou três grandes temas. Toque num tema:

% dos trechos dos resumos classificados em cada tema (201 de 219 trechos, análise de Reinert no IRaMuTeQ). Perguntas da Tabela 5, que guiaram os estudos seguintes. Fonte: seções 3.5 e 3.7.

05 Capítulo 4 · até 98 países

A cultura tem raízes na economia, na fé e nas leis

O autor comparou o perfil cultural dos países pelo desenvolvimento, pela religião da maioria e pela origem do sistema jurídico. As setas dizem o que muda em relação ao grupo de referência. Toque numa camada:

↑ nota mais alta que a referência↓ nota mais baixa

Só aparecem as diferenças estatisticamente significativas (*** p < 0,01; ** p < 0,05; * p < 0,10) em regressões logísticas multinomiais com 60, 79 e 98 países com dados completos. Fonte: Tabelas 8, 9 e 10.

06 Capítulos 5 a 7 · como a pesquisa olhou

Como medir um viés sem perguntar nada a ninguém

Em vez de questionários, a tese lê os vieses nas pegadas que deixam no mercado: o volume negociado e o movimento dos preços, dia a dia, setor a setor.

64bolsas de valores
15anos de pregões, 2010 a 2024
> 0,5 bide negociações
Excesso de confiança: quanto se negocia nos setores em queda, comparado ao volume normal de cada setor. Volume alto em dia ruim sugere gente confiante demais.
Efeito disposição: volume dos setores em alta dividido pelo dos setores em queda. Se o primeiro é bem maior, vende-se o que ganha e segura-se o que perde.
Manada: o quanto os setores se afastam da média do mercado em dias de grandes movimentos. Ao lado, veja a ideia.

Os dias de cada mercado viram três níveis (viés baixo, médio ou alto, pelos quartis), relacionados às seis dimensões por regressão logística multinomial; um segundo modelo (GAM) procura relações que não são linhas retas. Dados da Capital IQ. Fonte: seções 5.2, 6.3 e 7.3.

A ideia da medida de manada · exemplo ilustrativo

Setores e retornos inventados, só para mostrar a lógica. A medida da tese segue Chang, Cheng e Khorana (2000): se, nos dias de grandes movimentos, a distância média dos setores ao mercado cresce menos do que o esperado, há manada.

07 Capítulo 5 · excesso de confiança

Na pandemia, três traços culturais trocaram de lado

Antes da COVID-19, países mais individualistas, mais competitivos (masculinidade) e mais avessos à incerteza tinham mais dias de excesso de confiança. Na pandemia, os três passaram a frear o viés, e assim ficaram depois. Para o autor, diante de um risco que ninguém controla, as pessoas passaram a agir mais como grupo.

mais excesso de confiançamenos excesso de confiançasem efeito claro
Ver como tabela

Altura = tamanho do coeficiente (modelo completo, coluna 7); cor = direção. Coeficientes por ponto da escala de 0 a 100: pequenos um a um, somam diferenças grandes entre países distantes na escala. Toque num bloco. Fonte: Tabela 12.

08 Capítulo 6 · efeito disposição · 2010 a 2024

Países ricos e de olhar longo seguram menos o prejuízo

Quanto maior a renda por habitante, menor a chance de dias com efeito disposição alto. Países mais individualistas e de longo prazo também mostram menos o viés. Contra estudos anteriores, masculinidade e indulgência também aparecem ligadas a menos viés.

mais viésmenos viésfraco (p < 0,10)sem efeito claro

Modelo completo (coluna 8), por ponto de 0 a 100; a renda, em logaritmo, fica à parte (−0,0455***). No GAM, individualismo, aversão à incerteza e distância do poder ligam-se a mais viés em parte da escala. Fonte: Tabela 15 e seção 6.5.

E país a país? Média diária do índice de efeito disposição (1 = vende-se tanto o que sobe quanto o que cai):

Linha preta: média da amostra (1,77). O Brasil (1,13) é o 59º de 64, entre os que menos seguram o prejuízo. As médias diárias são puxadas por dias extremos; as medianas ficam perto de 1 em quase todos os países. Fonte: Tabelas 14 e H-1.

09 Capítulo 7 · efeito manada · 64 bolsas

Na pandemia, quase todo mercado parou de remar contra a corrente

Antes da COVID-19, 26 bolsas mostravam o contrário da manada: investidores agindo cada um por si. Na pandemia, só 9 continuaram assim; a maioria ficou neutra e a manada apareceu em 14. Depois, o anti-manada voltou (25) e a manada caiu para 7, quase toda em mercados emergentes, como Marrocos, Tunísia e Vietnã.

12com manada
26anti-manada
26neutras

Manada = coeficiente γ₃ negativo e significativo (p < 0,10) na regressão de cada bolsa, como no método da tese (seção 7.3); anti-manada = positivo e significativo. Antes: jan/2015 a 10/mar/2020; pandemia: 11/mar/2020 a dez/2021; depois: jan/2022 a jun/2024. Toque num país. Contagem nossa a partir da Tabela 17.

10 Capítulo 7 · cultura, renda e manada

Depois da crise, a hierarquia passou a pesar muito mais

A renda por habitante protege contra a manada nos três períodos. Entre os traços culturais, a distância do poder (aceitar a hierarquia) sempre puxou para a manada, e esse peso quase quintuplicou depois da pandemia. A orientação de longo prazo sempre freou o viés. Masculinidade e aversão à incerteza mudaram de sinal. Toque numa linha:

Renda por habitante · sempre protege
acima de zero: mais manadaabaixo de zero: menos manadaponto vazio: sem efeito claro

Coeficientes do modelo completo (coluna 8), por ponto de 0 a 100; a renda entra em logaritmo, por isso fica no painel à parte. O conjunto explica mais depois da crise (pseudo R² de 0,128 para 0,139 e 0,236). Fonte: Tabela 18.

11 Explore

Escolha um país e veja seu perfil

Juntamos, para cada uma das 64 bolsas, as notas culturais, o efeito disposição médio e o que o teste de manada mostrou em cada período. Compare com outro país:

Painel montado por nós a partir do Apêndice I, da Tabela H-1 e da Tabela 17. Os modelos da tese falam de tendências entre países, não preveem o comportamento de um país nem de um investidor.

12 E daí?

Educar, regular e investir com a cultura no radar

Educação financeira

Programas e alertas de risco funcionam melhor quando adaptados ao perfil cultural de quem investe, em vez de uma receita única para todos.

Seções 6.5 e 8

Reguladores

Atenção especial a mercados de renda baixa e média, onde ganhar renda mais reduz a manada, e a países hierárquicos na saída de crises. Comunicação de crise que reduz a ambiguidade.

Seção 7.5

Empresas

Considerar a cultura do mercado-alvo ao negociar, entrar num país e lançar produtos: onde a aversão à incerteza é alta, contratos detalhados e produtos que transmitam segurança.

Seções 4.5 e 8

Investidores

Saber que o ambiente cultural pesa nas decisões, e que numa crise esse peso pode mudar de direção, ajuda a desconfiar dos próprios impulsos. Leitura nossa.

A partir do capítulo 8

O que esta pesquisa não diz

  • Não prova causa. Mostra associações entre cultura, renda e vieses; outros fatores do país podem pesar nos dois. · segundo o autor
  • Uma nota por país. Hofstede supõe uma cultura homogênea e não capta regiões, subculturas nem imigrantes. · segundo o autor
  • Vieses medidos por pegadas no mercado, não por testes com pessoas; liquidez e robôs de negociação entram no volume. · segundo o autor
  • Uma crise só. A pandemia foi um choque de saúde; uma crise financeira ou uma guerra pode ter outro efeito, e as datas dos períodos são uma escolha. · segundo o autor
  • Poder de explicação modesto. Os modelos têm pseudo R² de 0,02 a 0,24, conforme o viés: a cultura é uma peça, não a explicação toda. · observação nossa

Créditos

Como citar
IKEDA, Wilson Eduardo. Cultural dimensions and behavioral finance: cross-national evidence of investor biases. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2026. Orientador: Prof. Dr. Denis Forte. Coorientação: Ana Paula Matias Gama, Ph.D.

Tese escrita em inglês, em cinco artigos, em dupla titulação com o doutorado em Gestão da Universidade da Beira Interior (Covilhã, Portugal), com apoio da CAPES e da FCT. Dados da Capital IQ, Hofstede Insights e Banco Mundial. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral.