O teatro de Boal dentro das organizações
Dá para desenvolver competências sem entregar uma lista de habilidades? A tese leva o Teatro do Oprimido, criado por Augusto Boal, para 37 mulheres gestoras de uma instituição financeira pública e mostra que a técnica só transforma quando quem a usa toma o lado de quem sofre a opressão. Explicada em 12 telas.
Sentir também é um jeito de conhecer
A tese tem quatro "atos", um por artigo. O primeiro pergunta como se faz ciência nas organizações. Os jeitos mais usados de pesquisar privilegiam pensar e medir. O autor propõe outro ponto de partida, o Paradigma Estético do filósofo Félix Guattari: o corpo vem primeiro, e sentir pesa tanto quanto pensar, conhecer e agir. Escolha um jeito de pesquisar:
Ilustração nossa: as alturas não são medidas. Mostram a ideia, defendida no primeiro artigo, de que o sentir tem "igual estatura" ao pensar, ao conhecer e ao agir. Os limites de cada paradigma resumem a seção "Paradigmas dominantes" da tese.
Toda organização tem brechas
O autor cria o conceito de brecha organizacional: um tempo e um lugar em que a norma cede um pouco e práticas sensíveis abrem caminho para outro jeito de trabalhar. Mas toda brecha pode ser fechada de novo, quando a prática é "capturada" pela lógica de sempre. Escolha um cenário e alterne:
- Microrrevoluções, pequenas mudanças do dia a dia, também contam: comer num espaço comum, terceirizados e diretoria convivendo, chamar todo mundo pelo nome. O teste, segundo a tese, é se mudou o que se valoriza e como as pessoas se relacionam.
Cenários, potenciais, riscos e exemplos do Quadro 1 do primeiro artigo. A animação é ilustrativa.
No teatro, a plateia pode só olhar ou entrar em cena
Empresas usam teatro para treinar líderes, vender melhor ou inovar. Um estudo de Meisiek (2004) separou três jeitos de fazer isso, inspirados em Aristóteles, no psicodrama de Moreno e em Boal. A tese acrescenta duas perguntas: que tipo de pessoa cada um ajuda a formar, e para quê. Escolha um:
Tipologia de Meisiek (2004) com os acréscimos da tese (Quadro 1 do segundo artigo). Boal criticava a própria ideia de catarse; a tese mantém a leitura de Meisiek como ponto de partida. Desenho nosso.
Dos 430 artigos, 35 contam usos reais do teatro
Para ver como o teatro tem sido usado, o autor buscou "teatro" e "organização" nas bases Scopus e Web of Science. Muito do que apareceu falava de outra coisa: gestão de casas de espetáculo, "teatros de guerra", salas de cirurgia. Ele não contou temas, como numa revisão comum: fez uma cartografia, um mapa das tensões do campo, em quatro etapas de atenção. Toque numa etapa:
Números da seção 4 do segundo artigo. Etapas da cartografia segundo Kastrup: rastreio, toque, pouso e reconhecimento atento.
A técnica não garante o resultado
A tese lê cada caso com quatro chaves: réguas entre o polo adaptativo (ajustar as pessoas à empresa) e o transformador (mudar as relações). Toque num caso e repare nos dois de Boal do lado adaptativo:
Quatro chaves e polos pelo Quadro 2 do segundo artigo. A tese não desenha pontos para cada caso: as posições (três níveis) são leitura nossa do texto da seção 5. A tese selecionou 17 artigos; a análise comenta 16, e os três finlandeses são lidos juntos.
Quem faz Teatro do Oprimido escolhe um lado
O Centro de Teatro do Oprimido (CTO), no Rio de Janeiro, foi fundado por Boal em 1986. Quem conduz as oficinas lá se chama Curinga. O autor fez cursos no CTO e entrevistou a diretoria. Das falas saíram quatro eixos, cada um batizado com uma frase dos entrevistados. Escolha um eixo ou toque numa pessoa:
Falas literais do terceiro artigo, com a oralidade preservada. Os entrevistados autorizaram o uso dos nomes (termo de consentimento). Quatro deles se declaram pretos e periféricos: é a primeira diretoria preta do CTO.
Para chegar às gestoras, a porta precisou abrir
O autor trabalha numa instituição financeira pública com mais de 80 mil empregados e foi superintendente antes de se afastar para o doutorado. Em abril de 2025, levou dois Curingas do CTO para oficinas de cerca de oito horas, dentro do expediente. Mas cada oficina dependeu de quem abria a porta. Toque numa porta:
Um cubo por participante. Oficina 1: 15 que chegaram no horário e 1 que voltava de férias. A tese não diz quantas foram à Oficina 2; os 9 saem da conta 37 − 16 − 12 (conta nossa), que bate com as 8 do início mais 1 a caminho. Instituição e pessoas anonimizadas pela tese.
Pediram competências de vendas e ouviram frases de machismo
O autor tinha se comprometido com a instituição a trabalhar competências de vendas, tema das oficinas 2 e 3. Num dos exercícios, as gestoras encenaram frases que já tinham ouvido no trabalho. Antes de ver, o que você acha que apareceu?
O número em cada frase é a oficina (1, tema carreira; 2 e 3, tema vendas). Frases transcritas na tese. São as que o autor registrou, não todas as ditas. Os quatro assuntos e a contagem são agrupamento nosso.
Na cena, a saída ensaiada foi coletiva
No Teatro Fórum, o grupo encena uma opressão real e qualquer pessoa da plateia pode interromper a cena, entrar no lugar de alguém e tentar outro final. É um "ensaio para a realidade". Escolha uma cena das oficinas, leia a situação e entre nela:
Cenas, o que o grupo ensaiou e as propostas finais vêm da tese. As três opções são nossas, para o jogo. A cena "Preta" foi vivida de verdade por uma das participantes.
A competência deixa de ser atributo individual
O autor acompanhou quatro movimentos que atravessaram as três oficinas. Juntos, eles levam a uma nova definição de competência. Toque num bloco (ou num movimento) para ver o que aconteceu em cada oficina:
O jeito comum
Conhecimentos, habilidades e atitudes de cada pessoa, que se adquirem num treinamento e se avaliam por metas.A proposta da tese
"Capacidades situadas, sensíveis e coletivamente produzidas de perceber, interpretar e intervir" na realidade da organização.Movimentos e exemplos da seção 6 do quarto artigo; definição da seção 7. A matriz organiza o texto e não mede intensidade: todos os blocos têm a mesma altura.
Competências também se desenvolvem em grupo
A tese troca a pergunta "quais competências desenvolver?" por outra: que experiências fazem um grupo perceber, sentir e intervir sobre o trabalho? Nas oficinas, a resposta veio em propostas: rede de apoio entre as gestoras, canal de denúncias conduzido por mulheres e política contra o racismo (as duas últimas foram no relatório à instituição).
Para quem contrata ou facilita
- Antes de começar, perguntar quem contrata, a quem o trabalho serve, quem estará na plateia e que autonomia terá quem conduz.
- Com o chefe na sala, dizem os Curingas, o diálogo dificilmente é horizontal.
Para o RH e a educação corporativa
- Treinar cada pessoa para responder melhor às metas é só um caminho. Outro é criar espaço para que o grupo nomeie o que adoece e ensaie saídas.
- O tema combinado (vendas) pode levar a problemas que a empresa não previu, como assédio e racismo.
Para gestoras e equipes
- O que parece "caso particular" pode ser um padrão. Juntar as colegas rompe a "solidão do cargo".
- Pequenas mudanças diárias, como almoçar juntas toda semana, contam como microrrevoluções.
O que esta pesquisa não diz
- Se os compromissos duraram. 34 das 37 participantes deram entrevista depois, mas isso ficou para outro estudo; a tese não acompanha o que veio após as oficinas. · segundo o autor
- Um acesso privilegiado. As oficinas saíram porque o autor, ex-superintendente, conhecia quem podia autorizá-las. · segundo o autor
- Um só lugar e um só grupo. Uma instituição pública muito hierarquizada e só mulheres gestoras; grupos mistos ou com chefes podem reagir de outro jeito. · segundo o autor
- Uma voz de dentro. As entrevistas ouviram só a diretoria do CTO, com os mesmos compromissos; faltam gestores e facilitadores de fora. · segundo o autor
- Um mapa, não uma medida. A cartografia acompanha movimentos; não mede ganhos de competência nem compara com outro treinamento. · segundo o autor
Créditos
VIEIRA, Rafael Augusto Kwiatkoski. Teatro de Boal como experiência ético-estético-política de aprendizagem transformadora e desenvolvimento de competências em organizações. Tese (Doutorado em Administração de Empresas) · Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2026. Orientadora: Profa. Dra. Janette Brunstein.
Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Mackenzie. Segundo o autor, o ChatGPT apoiou a organização das ideias, a revisão da estrutura dos artigos e a correção do texto. Esta versão simplifica o trabalho para o público em geral.